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Quinze dias com Santa Catarina de Sena

O ponto de partida para estes dias de oração, é um convite a inverter a marcha. Nós dizemos: «Eu sou», «Eu existo», «Eu amo», «Eu não amo», «Eu vivo», «Eu rebento» … e às vezes, desabafamos: «Estou farto». Em suma, mesmo de rastos, o nosso «Eu» anda de boa saúde. «E Deus, no meio de tudo isso? Será que está presente»? Os dois primeiros dias levar-nos-ão a uma descentralização e a uma concentração. Deus diz: «Eu sou» e mostra-nos, com amor, que nós não somos senão por Ele. Esta revelação leva-nos a vincular alegremente a nossa vida, não ao «eu», mas ao «Tu»: fomos feitos para contemplar e admirar, pois «somos feitos só de amor».

«O insensato diz: “Deus não existe”» (Sl 13), porque julga que a liberdade tem esse preço. Catarina ajuda-nos a receber a nossa vida do Criador, pois a nossa liberdade tem nele a sua fonte. Penetremos, pois, no conhecimento de nós próprios em Deus em nós. Geralmente o sentimento de não ser nada é experimentado como uma descida aos infernos, uma «queda» das alturas, uma experiência do vazio em que giramos em torno de nós próprios. Mas neste caso, a revelação do nosso nada é fonte de alegria, pois nos é dada no encontro com um Deus «apaixonado pela sua criatura», não tendo nós contribuído para tal de «maneira nenhuma».
A seguir a estes primeiros passos no conhecimento e no reconhecimento, penetremos mais ainda na intimidade de Cristo, a fim de nos deixarmos transformar por Ele. A maneira mas segura de nos parecermos com Ele, é reparar no empenho com que se deu. O caminho mais curto, é «atravessara ponte» - largar as mãos e deixar-se levar – e contemplar com que liberdade Cristo se ofereceu na cruz para nos acolher no seu lado aberto e no inundar do seu amor.

A cruz é o eixo central destes quinze dias, porque ela é o lugar do «a Deus». É aí que o conhecimento interior de Cristo se aprofunda até à comunhão suprema: «Permanecei no meu amor» (Jo 15,9). O símbolo duradouro desta intimidade é o sangue de Cristo que irriga as nossas vidas pelos sacramentos.

Foi também na cruz que Jesus suportou a nossa falta de fidelidade no momento da crise e o endurecimento de muitos no momento do Dom supremo. Ao longo destes dias, estará em foco a «sombra do amor próprio», as tentações de abandono, e o amor tão fascinante de Cristo na cruz para com os pecadores que nós somos.

O fruto final desta contemplação é a oferta de si mesmo - «toma a minha vida» - por amor de Cristo e do seu Corpo – a Igreja e a humanidade inteira com a qual Ele faz corpo. Este oferecimento inscreve-se na liberdade espantosa com que Maria se ofereceu quando da Anunciação: nesse dia, Deus inscreve-se nessa total disponibilidade humana e, humildemente, faz a sua morada entre nós.

Quem sou eu?

Quem não pergunta pela sua identidade? A todos nos preocupa. Tem tal influência na nossa vida que, se tivermos uma má imagem de nós mesmos, nos socorremos – por causa da nossa vulnerabilidade – da aprovação alheia, submetendo-nos à sua autoridade. Adoptamos, então, um comportamento de dependência relativamente às pessoas (necessidade de reconhecimento, de protecção…), bem como às actividades e aos objectos. Quanto mais eu for, para mim próprio, um desconhecido, mais procuro alguma maneira de ser reconhecido por alguém. É como se a minha vida só aos seus olhos existisse.

«Quem sou eu?» - pergunta-se Catarina a si mesma, aos 18 anos de idade. A resposta a essa pergunta será o fundamento da sua vida espiritual. Tal interrogação não provém, de modo nenhum, da necessidade de introspecção. Uma noite, estando toda absorta nas suas conversações com o Senhor, dialogava com Ele com um certo atrevimento; de repente, porém, receando estar a ir longe demais, exclamou: «Alma miserável, quem és tu para que Deus se digne conversar contigo face a face?... Senhor, quem sou eu? E diz-me também, Senhor, quem Tu és».

É sob o olhar de Deus, e não dos homens, que Catarina se interroga; é ao Senhor que faz a pergunta. A resposta será divina. A interrogação não provém do desdém, mas do espanto (pelo seu atrevimento) e da admiração (por Deus conversar com ela face a face). A possibilidade de dialogar com Deus não oculta o risco de se elevar até Ele, tomando parte no que há de mais sagrado, ou seja, na sua Palavra? E quando Deus me fala, não correrá o risco de descer até mim?

Catarina é acometida por um acesso de humildade. Não tenta compreender-se por si só, como se a lua se iluminasse a si própria. Permanece na luz de Deus e, na relação filial que com Ele mantém, recebe a resposta: «Sabes, minha filha, quem tu és e quem Eu sou»? A palavra do Senhor introdu-la no mundo das bem-aventuranças: «Se possuíres esse duplo conhecimento, serás feliz». Tal como no monte das bem-aventuranças, a seguir a cada proclamação «felizes…», fica-se à espera de assistir ao desfilar dos princípios de sabedoria do mundo; o que se segue, porém, deixa-a desconcertada: «Tu és aquela que não é. Eu sou aquele que sou».

«Tu és aquela que não é»: um género de declaração que, normalmente, deveria deprimir-nos ou, pelo menos vexar-nos. Mas em Catarina produz o efeito contrário! A descoberta do seu nada diante de Deus, vai dotá-la de uma tal liberdade frente a si própria e frente aos outros, que será a força motriz da sua audácia apostólica. Juntamente com a descoberta de nada ser por si mesma, recebe a humildade e a gratidão.

 O esquecimento de si perante «Aquele que é», proporciona a alegria de saber que tudo é graça e audácia de viver como feliz devedor.
A obsessão connosco mesmos, equivale a que nos fixemos na própria baixeza. Provoca um sentimento de perturbação um tanto niilista. Acarreta desprezo de si e pusilanimidade: sob o álibi da fraqueza, permito-me desistir de tudo. Também acarreta orgulho, pois faz que me considere juiz de mim próprio. E finalmente, ingratidão, pois sob o pretexto de não me vangloriar, esqueço-me de dar graças por tudo quanto recebi.

Em todo o Diálogo, Catarina admira-se do facto de a nossa existência depender do amor transbordante da Trindade. É deste amor que recebemos a nossa identidade. Nada somos por nós mesmos. Esta dependência, vivida com gratidão, é o segredo da alegria. Quando cortamos o cordão umbilical que nos liga ao Criador, quando a relação com Deus se deteriora, as coisas começam a correr mal no nosso íntimo. Dizemos: «Não valho nada… Sou uma nulidade»! e desanimamos, porque nos vemos só a nós mesmos! Mas a partir do momento em que nos recebemos como criaturas das mãos do Criador, tudo muda.

Esta experiência foi a alavanca de toda a vida de Catarina. Às vezes temo-nos em tão pouco consideração que sentimos demasiadamente o peso da vida… Deixamos de dar «glória» a Deus. Suportamos nós todo o peso. Como duas pessoas que se baloiçam numa tábua fixa num eixo, elevando-se alternadamente: se colocássemos o peso do lado de Deus, é evidente que seríamos elevados. Como numa brincadeira de crianças. Ao ser elevados, arrastaríamos connosco a humanidade. Em hebraico, a palavra «glória» o que o que tem valor, o que tem «peso». Quando damos glória a Deus, a nossa vida torna-se leve, precisamente por colocarmos todo o peso do lado de «Aquele que é» e que nos eleva.

A vida transforma-se, então, num «Magnificat» e a pergunta «Quem sou eu?» passa a ser daquelas que todos os namorados formulam: «Que seria de eu sem ti e sem saber que me amas com tanto amor»? Olha à tua volta e vê quantas pessoas têm a sensação de não existirem para ninguém. Não será o auge do desamparo? Quantas não têm a sensação de só existirem por elas e para elas? A única libertação da sensação de abandono e de solidão do «self-made man» ou «woman», está em saber que existimos por Deus e que somos alguém para Ele!

Ao longo do Diálogo, Deus Pai diz a Catarina: «O conhecimento de ti própria inspirar-te-á a humildade, revelando-te que, por ti mesma, não existes, e que recebes de Mim a existência, pois te amei, a ti e aos outros, antes que vós existísseis… Foi este amor inefável que vos tive, querendo criar-vos novamente em graça, que Me fez lavar-vos e regenerar-vos no sangue do meu Filho único, derramado com tão grande incêndio de amor» (D 4).

* * *

Entra na «cela do conhecimento de ti mesma» e reconhece a bondade de Deus que te deu tudo: «a vida, o movimento e a existência» (Act. 17,28). «Que tens tu que não hajas recebido» (1Cor 4,7)?

«Graças, graças Te sejam dadas, Pai eterno,
Por não me teres desprezado, a mim, tua criatura,
Por não teres afastado de mim a tua face
nem repelido os meus desejos.
Tu, a luz, vieste a mim, que sou trevas;
Tu, a vida, a mim que sou a morte;
Tu, médico, às minhas graves doenças;
Tu, pureza eterna, a mim, repleta de lama de inumeráveis pecados;
Tu, o infinito, a mim que sou finita;
Tu, a sabedoria, a mim que sou loucura» (O 10).

Entra na tua cela, expulsa o teu amor próprio. Rejubila por seres recebida por Aquele que te chama «minha filha», «meu filho». Tu és aquela/aquele que és para Ele.

«Ó amor incompreensível!
A quem chamas: minha filha?
Eu chamo-te: Pai eterno!
Suplico-te, Deus misericordiosíssimo,
que comuniques o fogo da tua caridade
q todos os teus servos;
a tua Verdade disse: “Procurai e achareis,
pedi e dar-se-vos-á, batei e abrir-se-vos-á”.
Bato à porta da tua verdade, procuro,
clamo na presença da tua majestade,
peço, à tua clemência, misericórdia
para o mundo inteiro
e particularmente para a santa Igreja» (O 26).

A sarça ardente 

Catarina contou ao seu confessor, Raimundo de Cápua, a continuação da resposta do Senhor à sua pergunta; «Tu és aquela que não é. Eu sou aquele que sou. Se tiveres na tua alma esse conhecimento, o inimigo nunca te poderá vencer, pois ficarás livre de todos os seus ardis; nunca mais consentirás em nenhuma coisa contrária aos meus mandamentos e obterás, sem dificuldade, toda a graça, toda a verdade e toda a luz».

A jovem vive então num reduto da casa paterna, onde permanecerá durante três anos. Aí se entrega à oração, ao jejum e a uma vida austera. «Soube encontrar um deserto na sua própria casa e viver em solidão no meio do mundo», observa Raimundo.

Nesse deserto, porém, também é tentada. Ora o Senhor lhe fala «como um amigo fala ao seu amigo», ora é a serpente que assobia, pondo à prova a sua fé, a sua generosidade na renúncia e a sua opção pela virgindade, atormentando-a com paixões. «Onde estavas, Senhor, quando o meu coração era atormentado por tantas torpezas»? – perguntou ela. «Estava no teu coração… E quem te causaria essa tristeza a não ser Eu, conservando-Me escondido no teu coração»?

Nesse deserto, onde o Espírito a vai conduzindo por entre as tribulações interiores, Catarina recebe, como Moisés diante da sarça ardente, a revelação da identidade de Deus: «Eu sou aquele que sou», dando assim a entender que os outros deuses não existem. Os ídolos «não vêem, não falam, não ouvem» (Sl 113). Não prestam para nada. A revelação de Deus a Catarina é acompanhada de uma promessa de vitória sobre as tentações e de capacidade para receber a graça, a verdade e a luz de Deus.

Ao descer a sua absoluta dependência do seu Criador e Redentor, a alma inflama-se. «A alma – diz Deus – fica abrasada de um amor inefável. E esse amor mantém-na num sofrimento contínuo; não numa dor aflitiva, que a arrase ou a encha de aridez, mas num sofrimento que a alimenta. Ao conhecer a minha verdade e, ao mesmo tempo, as suas faltas e ingratidão, bem como a cegueira do próximo, sente dores intoleráveis. Se sofre, é porque ama; se não amasse, não sofreria» (D4).

No Egipto, Moisés viu a sarça diante de si. Ardia sem se consumir. Neste caso, a sarça é a própria Catarina. Arde e consome-se… na oração e no oferecimento de si mesma. Tem apenas 20 anos e começa a incendiar o mundo à sua volta. Por pequenas faúlhas, primeiramente. Depois, de cidade em cidade, na Toscana; e de Avinhão a Roma, com a sai presença, até diversos palácios da Europa. Não damos conta, hoje em dia, de ter sido tocados pela sua graça? «A minha natureza é o fogo», diz ela. Desposada por Cristo na fé, torna-se «um outro Ele, pela união de amor».

«Quando tu e os meus outros servos, tiverdes assim conhecido a minha Verdade, ficareis dispostos a suportar, atém à morte, todas as tribulações, injúrias, opróbrios, em palavras e em acções, pela honra e glória do meu nome. É assim que receberás e suportarás as dores». (D 4).

Aos trinta e três anos, a vida de Catarina está consumada. Consumou-se na compaixão, isto é, na comunhão com Cristo que sofre com a ingratidão das pessoas que não reconhecem tudo quanto Deus lhes deus. A primeira coisa que Deus lhes ofereceu, foi a existência; a segunda, foi a «re-criação» no amor de Cristo, que deu a sua vida por nós, na cruz.

* * *

Entra em oração com Catarina:

«Ó Pai eterno…
A luz da fé
alimenta e faz crescer o fogo na alma,
que não pode arder no fogo da caridade
se a luz não lhe revelar o teu amor por nós.
Tu, luz, alimentas e fazes crescer o fogo na alma
Como a lenha alimenta o fogo material.
Ó luz maior que todas as luzes!
Ó bondade maior que toda a bondade!
Ó sabedoria maior que toda a sabedoria!
Ó fogo que ultrapassa todo o fogo!
Porque só Tu és Aquele que é,
e tudo o resto, não é nada,
a não ser na medida em que Tu lhe deres o ser» (O 17).

Deixa penetrar em ti estas palavras: «Tu conheces-Me em ti, e desse conhecimento, obterás tudo quanto te é necessário». Liberta-te de tudo o que não é.
«Ao conhecer o seu nada, a alma é levada, pouco a pouco, a conhecer a bondade de Deus para com ela, e desse conhecimento advém-lhe uma profunda humildade que, como a água benfazeja, extingue o fogo do orgulho e acende o fogo da caridade ardente…
Ao ver o amor infinito que Deus lhe tem, a alma não pode deixar de O amar» (C 43).

Volta a tua vida para Aquele a quem dizes:
«Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito, ao Deus que é…».
«Tu és o fogo sempre a arder. «Trindade… Inflama os nossos corações» (O 13). 

A casa do conhecimento próprio e de Deus

É dentro de mim que eu moro e é aí que Deus se faz convidado. É a dimensão espiritual da minha existência, o lugar onde procuro conciliar a minha sede de absoluto com os valores terrenos. É a minha inferioridade. Às vezes ando fora de mim, seja por os conflitos interiores me perseguirem, seja por o mundo me absorver a tal ponto que deixo de ser quem sou. Posso ter muitas casas, mas tenho uma única residência.

«Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém abrir, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo» (Ap 3, 20). Ninguém mostrou tanto respeito pela liberdade humana como Deus. Ele, que tem todas as chaves na mão, espera à porta da sua serva. Catarina enche-se de admiração perante o mistério da nossa liberdade: «Ele bateu à porta da tua vontade, ó Maria…, e se não tivesses querido abrir, Deus não teria encarnado em ti».
«Ó Maria, templo da Trindade, receptáculo da humildade» (O 21)!

«Quando orares, entra no teu quarto mais secreto» (Mt 6,6). Que quarto? O teu quarto alto, o teu cenáculo!

Catarina explana as metáforas bíblicas que se referem à vida interior: a casa do conhecimento próprio, a cela interior. Não contando com o apoio da vida em comunidade, arranjou uma cela na casa paterna. Aqueles lugares são uma imagem das condições em que vive a sua intimidade com Deus, no meio do mundo.

Conhece bem todos os cantos da casa, pois é ela que faz as limpezas, abre a porta e serve a família e os amigos, como hospedeira de Cristo e dos apóstolos. Vivendo a graça de Marta nos vários andares, vive a de Maria na cela que instalou na cave, onde ouve o Senhor falar-lhe e dar-lhe «a melhor parte».

Reconhecendo-me amado(a), já não me reconheço, pois o amor transfigura! «Ó abismo de caridade, pareces louco pelas tuas criaturas, como se não pudesses viver sem elas, quando afinal és o nosso Deus. O que Te faz ter tanta misericórdia? O amor, e não a necessidade que porventura terias de nós» (O 7). «Quando a alma vê e pensa que Deus a ama tanto, não pode deixar de O amar».

A experiência fundamental do conhecimento próprio, portanto, não é o fracasso nem o pecado, não é o homem nu e descaído; é, antes a alegria de se saber amado. Esse conhecimento é dinamizado por uma concepção optimista do homem e pela confiança na sua liberdade, sempre capaz de fazer o bem. «Deus, olhando para si mesmo, apaixonou-se pela beleza da sua criatura e, num transporte de amor, criou-a à sua imagem e semelhança» (C 210). É certo que o pecado manchou a semelhança, mas a imagem permanece: que maravilha sou! Esse conhecimento é um Dom. O seu objectivo final é Deus: «Depois conhecerei como sou conhecido» (1Cor 13,12).

O homem, privado dessa luz, é cruel para consigo mesmo: não vê que Deus o elevou, com muito amor, a uma condição muito superior àquela a que antes poderia aspirar. Fica cativo das suas exigências e mesmo e para com os outros. Submete-se a mutilações para se conformar com o modelo que lhe oferecem aqueles com quem se relaciona e mutila o outro para o tornar conforme a si mesmo. A raiz da crueldade para com os outros é, em primeiro lugar, a crueldade para consigo: o homem tem uma ideia muito pobre da sua dignidade. Despreza-se!

Ao iniciar a fase mais intensa da sua vida apostólica, passando a ser cada vez mais itinerante, Catarina nunca sai da sua cela interior. Sofre por constatar este paradoxo: muitos religiosos, que beneficiam de uma cela murada, desejam deixá-la ao menor pretexto. Não tendo cela interior, muitas colunas da Igreja caíram… «Escrevo-te com o desejo de te ver habitar na cela do conhecimento de Deus a teu respeito. Nesta cela, adquirem-se a humildade e a caridade ardente. Quem se conhece, conhece Deus e a bondade de Deus para com ele e, por isso, ama-O. Não se perturba com as perseguições do mundo, mas dispõe-se a suportar os defeitos do próximo. Fez da sua cela um céu e prefere aí permanecer cheio de aflições e sujeito às tentações do demónio, do que procurar, fora, a paz e o repouso… Fora da sua cela, morre como o peixe fora da água» (C 123).

* * *

«Ó Pai compassivo e misericordioso,
tem piedade de nós, concede-nos misericórdia,
porque somos cegos,
privados de toda a luz,
sobretudo eu, pobre e miserável,
sempre cruel para comigo mesma.

Já que, na tua luz, vês as nossas necessidades,
faz que conheçamos a tua eterna bondade
para que a amemos…

A luz está à porta da alma e logo que se lha abre,
aflui como o sol que bate na janela fechada
e entra na casa aberta.
Convém, pois, que a alma tenha vontade
de Te conhecer
e abre os olhos da inteligência;
então, ó verdadeiro Sol,
entras na alma e espalhas os teus esplendores;
dissipas as trevas e derramas a claridade;
expulsas humildade do amor próprio,
para não deixares ficar senão
o fogo da caridade;
fazes que o coração seja livre
pois, na tua luz, ele reconhece
quão grande é a liberdade que nos deste,
arrancando-nos à escravidão do demónio
em que vivia a humanidade
por causa da sua própria crueldade».

Aqueles que andam cegos pelo amor próprio, não conhecem nada: nem a si mesmos, nem a Deus; caso contrário, não seriam tão cruéis para consigo mesmos, «tornar-se-iam bons na tua bondade».

«Oh! Como a tua luz é necessária!
De todo o meu coração Te suplico que a dês a todas as criaturas racionais» (O 18).

Memória, inteligência e vontade cheias de Deus ou de mim? 

Catarina quer tornar-nos mais capazes de Deus. Investiga o funcionamento da memória, da inteligência e da vontade, a sua harmonia e os seus conflitos. A memória influencia a minha vida. Tudo o que esqueço ou que retenho, modela a minha inteligência. O que me marcou, ilumina ou obscurece a maneira de me ver a mim mesmo e de ver Deus e os outros. Se a minha inteligência estiver embaciada, a minha vontade fica «desordenada».

Memória, inteligência e vontade são as três maravilhosas faculdades que orientam a minha existência, são como que magnetizadas por Deus, como as limalhas de ferro são atraídas por um íman. Retirai o íman, e a memória, esvaziada «da lembrança de Deus e dos seus benefícios», só retém o imediato: «O que vejo, quero possuí-lo; ou o azedume: «O que vejo, não posso possuí-lo»; ou o desdém: «Isso, não posso esquece-lo». Um, tem a memória curta e julga que não deve nada a ninguém; outro, tem memória de elefante, e não retém senão os golpes e as feridas. Outro ainda, bebe, droga-se, droga-se, estonteia-se, para tentar esquecer… mas em vão.

A memória humana é como um recipiente: vale aquilo que nele se mete. Com que o enchemos? «É as prática do amor – diz Deus – que enche a memória com a minha lembrança e com a recordação de todos os meus benefícios. Essa lembrança enche a inteligência de zelo e de reconhecimento. A alma não pode viver sem amor. Quer sempre amar qualquer coisa. É feita de amor, pois criei-a para amar» ( D 51).

O afecto alimenta-me a memória. Recorda e torna a recordar, como fazem os namorados, tudo quanto Deus dá na sua criação e nas alianças que tem multiplicado, apesar dos pecados e das desordens da humanidade: «A minha alma estremece ao recordar… A minha alma estremece ao recordar… A minha alma está abatida, por isso penso muito em Ti» (Sl 41). A memória detém-se muitas vezes nos dons, sem reconhecer o doador que doa e… perdoa! «É por isso que ás vezes – diz Deus a Catarina – retiro à alma as consolações, para que Me procure e não se detenha unicamente nos meus benefícios». A minha memória pode ser uma casa de comércio: «Rezo até chegar a obter…Depois, até me esqueço de agradecer». Mas a minha memória é um templo, um lugar de comunhão com o Pai, que me criou para a vida eterna… com Ele. Lembrando-me do sofrimento do Filho, compreendo a minha ingratidão e a minha ofensa. Lembrando-me do Dom do Espírito à Igreja e da sua presença na minha vida, a minha memória extasia-se, a minha inteligência ilumina-se e a minha vontade põe-se a caminho.

A memória, a inteligência e a vontade mantêm-me, em conjunto e uma por meio da outra, orientando para Deus ou para mim mesmo, à maneira de uma antena parabólica. Sou responsável pelas minhas faculdades e é a minha liberdade que as orienta e as desorienta: «As delícias do mundo, quando se está separado de Mim, estão repletas de espinho e veneno. A inteligência engana-se na sua maneira de ver; a vontade, no seu amor…; a memória, no que retém. Há uma tal união entre estas três potências, que não posso ser ofendido por uma sem que o seja pelas outras…Cada uma é causa de bem ou de mal para a outra, conforme a decisão do livre arbítrio» (D 51).

Cada geração tem os seus traumatismos e todas as vidas são mais ou menos atingidas, uns sofreram a peste, outros a fome, os campos de concentração, o divórcio, o incesto… Não há nenhuma vida que não seja marcada por feridas ou deslizes mais ou menos ocultos, assumidos ou recalcados. Podem sempre dar origem a atitudes de perdão, solidariedade, compreensão mútua, conversão… A história conserva, muito discretamente, a memória destas maravilhas pouco mediáticas. Talvez nos impressione mais a influência do mal por ser visível e sensível. O vazio interior é propício à perturbação… «Como sabes, quando se bate em alguma vazia, faz ressonância, mas se estiver cheia, já não ressoa. O mesmo se passa com a memória quando está cheia da luz da inteligência ou do amor da vontade: as tribulações – e as alegrias – podem bater nela, mas não a fazem vibrar, nem de alegria desordenada, nem de impaciência: está cheia de Mim, que sou todo o bem» ( D 54).

Todos nós deveríamos aprender a gerir a recordação das provações. Estas podem tornar-se como um tampão e não deixar Deus entrar. O amor-próprio perturba e impede que se veja a graça, aliás constantemente oferecida. Na oração, Catarina faz memória de Deus, incessantemente, e das maravilhas que Ele está sempre a renovar, tanto na ordem da criação como na da redenção, pelo Dom do Espírito, e da Igreja, com os sacramentos que administra em ordem à vida eterna onde será tão bom estar com Deus quanto se tiver desejado.

A memória cristã é como um crivo: os acontecimentos que não servem para nos unir com Deus, passam através dela; os outros, guardamo-los, como Maria os «guardava – fielmente – no seu coração» (Lc 2,51). A memória de Maria não se detém na recordação dos tormentos infligidos ao seu Filho, mas fixa-se no amor com que Ele amou aqueles que O não amaram. É uma maneira de ver as coisas. Se olharmos para trás, que seja para dar graças: «Não esqueças nenhum dos seus benefícios» (Sl 103).

Viver à imagem da Trindade 

Quando a memória, a inteligência e a vontade estiverem unidas a Deus, são habitadas pela Trindade. Ao olhar para o coração humano, Catarina interroga-se: quem recebeu a memória? Do Pai. Porque o Pai é todo-poderoso: tudo quanto existe, existe por Ele. Nele está o passado, o presente e o futuro. Sou-Lhe semelhante quando guardo na memória aquilo que – no passado, no presente e no futuro, que antecipo na esperança da sua misericórdia – me faz existir. «No meu coração conservo as tuas promessas». (Sl 118).

Catarina olha para a nossa inteligência e interroga-se: quem nos esclarece sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre a vontade do Pai? A sabedoria do Filho. É ela que nos faz reconhecer Cristo no homem de Nazaré, «totalmente Deus e totalmente homem»; faz-nos ver o amor, para além do horror da cruz; e para além da nossa miséria, a nossa divinização! «Fui eu, Deus, que to disse: fiz-Me homem eo homem tornou-se Deus pela união da minha natureza divina com a sua natureza humana». (D 110).

E a nossa vontade? A experiência do pecado enfraqueceu-a consideravelmente. Quem nos dará vontade? O Espírito. É ele que dá coragem aos apóstolos e que nos dá força e preserverança, tanto nas provações como no tédio.

Sendo assim, a memória une-me ao Pai; a inteligência, à Sabedoria de Cristo; e a vontade, ao Espírito. Não só estou envolvido pela Trindade, por ter ser criado pela difusão do amor, mas tenho-A em mim. Catarina comenta a frase: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, estarei no meio deles», aplicando-a à harmonia existente entre a memória, a inteligência e a vontade: quando estas estão unidas na orientação para Deus, acolhem a Trindade.

Há três Pessoas em Deus e que harmonia reina entre Elas! Mas em mim reina, muitas vezes, o caos… «Unifica o meu coração, Senhor» (Sl 86)! Tu que tiras o pecado, dá-me a paz: a paz entre a minha memória, a minha inteligência e a minha vontade, a fim de que tenhas «em tudo, a primazia».

* * *

«Ó amor inefável, nada a Trindade
concorreu para a criação de homem
e a forma da Trindade foi impressa
nas potências da sua alma.
Deste-lhe a memória
para que receba a tua forma, ó Pai eterno,
para reter e conservar
o que a inteligência vê, compreende e conhece
de Ti, bondade infinita.
E por essa inteligência,
participamos na sabedoria do teu Filho único.
Deste-nos a vontade,
a doce clemência do Espírito Santo:
e a vontade, repleta do teu amor,
apodera-se do que a inteligência
compreende da tua bondade inefável;
com o apoio energético do amor,
enche de Ti a memória e o coração.

Graças, graças Te sejam dadas… por tanto amor
que nos manifestas,
dando-nos uma forma tão preciosa
e as potências da nossa alma:
a inteligência, para Te conhecer,
a memória, para Te conservar em nós,
a vontade e o amor para Te amar acima de tudo.
Que se envergonhe aquele que,
Sendo por ti tão amado,
não ama!
Pequei, Senhor, tende piedade de mim» (O 1)!

Elevar-se para a Misericórdia e descer até ao vale da Humildade

A cela do conhecimento próprio é um cenáculo. Deus dá o seu amor na medida do desejo que Lhe exprimo. Por outro lado, é sobretudo na oração que o demónio arma seus laços para reinar na casa. Por isso, Deus proporciona critérios de discernimento e também meios de repelir eficazmente o intruso.

Se considerar os meus pecados sem me recordar da misericórdia de Deus, caio na confusão. «A táctica do demónio» consiste, precisamente, em impelir para o desespero, sob o pretexto de contrição. «Portanto, para lhe resistir e Me agradar, é preciso que, com humildade sincera, entregueis o vosso amor e o vosso desejo à minha incomensurável misericórdia. Com efeito, tu sabes que o orgulho do demónio não suporta a humildade espiritual; e que, quando a alma confia verdadeiramente na grandeza da minha bondade e misericórdia, ele fica cheio de confusão» (D 66). Deus lembra a Catarina que o demónio quis deprimi-la, fazendo-a crer que a sua vida fora um logro. Ela reagiu, elevando-se. «Tu fizeste o que devias fazer; e Eu nunca recuso a minha bondade a quem quiser recebê-la. Elevaste-te humildemente para a minha misericórdia e disseste: “Confesso ao meu criador que a minha vida se passou nas trevas; refugiar-me-ei, porém, nas chagas de Cristo crucificado, banhar-me-ei no seu sangue; destruirei, desse modo, toda a iniquidade, e alegrar-me-ei com o desejo do meu criador”, Bem sabes que o demónio se pôs em fuga».

Em vez de me debruçar sobre o meu eu miserável, elevar-me-ei para a misericórdia, refugiar-me-ei nela com filial confiança, sabendo que um filho ou uma filha tem sempre lugar no coração de Deus. Alegrar-me-ei «com o desejo do meu criador»!

A seguir à cilada do desânimo, surge, igualmente sedutora, a da auto-satisfação. «Ele quis – continua Deus – encher-te de orgulho, dizendo: “Tu és perfeita e agradável a Deus…, deixa de lamentar os teus defeitos”! Então dei-te a luz e tu viste o que devias fazer: humilhar-te. Respondeste ao demónio: “… João Baptista… fez muita penitência; e eu, que cometi tantas faltas, tereis reconhecido quem é esse Deus a quem ofendi e quão miserável sou por O ofender”? Então o demónio, não podendo suportar, nem a humildade do teu espírito nem a tua esperança na minha bondade, gritou-te: “Maldita sejas… Se te aterrorizo com confusão, elevas-te para a misericórdia; se te exalto, desces humildemente até ao inferno e, mesmo no inferno, feres-me com o cajado do amor”» (D 66)! É o demónio que, ao ser expulso da minha cela e ao ficar derrotado, entrega a chave da vitória. Deus concede-me que o persiga com o cajado do amor e conclui: «Se apenas te conhecesses a ti mesmo, cairias no desânimo; se apenas conhecesses a bondade de Deus, cairias na presunção».

Na casa do conhecimento, Deus ensina-me os perigos de desânimo e da auto-satisfação. Em ambos os casos, só me vejo a mim próprio. No segundo, Deus enviar-me-á, provavelmente, algumas tribulações terapêuticas, para que me volte para Ele. Quanto ao primeiro caso, é verdadeiramente patético. O desesperado sofre mais com a própria desgraça do que com a ofensa feita a Deus: só sente compaixão por si mesmo. Chega ao cúmulo da julgar o seu pecado maior do que a misericórdia divina! Paradoxo do orgulho: na sua cegueira, em nome da sua fraqueza, arroga-se o direito de emitir o seu julgamento «último»! Por isso, Deus diz: «O desespero de Judas entristeceu-me mais a Mim e foi mais penoso para o Meu filho, do que a sua traição» (D 137). Tu, inversamente, nunca te esqueças de que Deus habita em ti e que podes sempre refugiar-te aberto para ti. «Se não vos tornardes como crianças…».

* * *

Conhece-te em Deus e Deus em ti. Com alegria, cultiva o que em ti há em ti de divino: «Sois feitos só de amor».

Quando te vires de rastos, ganha altura. Cristo também te diz a ti: «Ocupa-te de mim, que Eu me ocuparei de ti». Quando «o teu coração estiver em baixo e se sentir em apertos», faz como Zaqueu, trepa à «árvore da cruz» (C 119).

Quando a tua consciência se sentir satisfeita, trata de não desprezar o sangue derramado por ti. Desce até ao vale da humildade: perante o teu nada, Deus «aniquilou-se» (Fl 2,7) para te exaltar. Deus, que é mais humilde do que nós, habita na tua cela e revela-Se a ti próprio.

«Ó de deliciosa bondade… Não conhecemos de Ti
senão o que nos dás a conhecer;
e Tu no-lo dás na medida em que dispusermos
o pequeno recipiente da nossa alma
para Te receber.
Ó dulcíssimo amor, nunca Te amei totalmente
durante todo o tempo da minha vida.

Recomendo-Te os meus filhos
que me colocaste sobre os ombros.
Ai de mim! Deveria despertá-los
e estou sempre a dormir.
Pai dulcíssimo e misericordioso, desperta-os Tu,
para que o olhar da sua inteligência
Se fixe para sempre em Ti.

Pequei, Senhor, tem piedade de mim.
«Deus, vem em nosso auxílio,
Apressa-Te em socorrer-nos» (O 18)!

O rio da mentira e a ponte da verdade

Antes de passar deste mundo para o Pai, Jesus disse: «E para onde eu vou, vós sabeis o caminho… Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,4-6). Jesus quer associar-nos ao seu retorno ao Pai. E tal como Ele, Catarina deseja ardentemente que enveredemos pelo Caminho por cima das ondas.

A existência crista depara-se com uma encruzilhada de dois caminhos. Por um deles, seríamos arrastados pela corrente do mundo, à maneira de um rio que desaguasse num oceano de morte. É o caminho da mentira. Pelo outro, seríamos conduzidos pela graça, como por uma ponte sobre um rio impetuoso que acarretasse consigo todo o lodo. É o caminho da Verdade. Essa ponte permite que passemos de uma margem para a outra, do nosso reino, para o reino de Deus, de uma vida centrada em nós mesmos, para a vida em Cristo. O caminho da Verdade leva à paz e à vida em plenitude.

Catarina, que viajava muito, emprega os termos «pontes» e «caminhos» para nos conduzir ao Pai, passando por Cristo. Conhece a ponte de Avinhão, com vinte e cinco arcos (restam apenas quatro) e o impressionante caudal do Reno. Atravessou, em todas as estações do ano, as pontes sobre o Arno, em Florença e em Pisa, repetidamente arrasadas pelas cheias. Muitas vezes, as pontes medievais eram cobertas por um tecto. Albergavam lojas e até capelas.
Eram construções magnificas que desembocavam junto da porta da cidade. Ainda hoje, a construção de uma ponte suspensa perto da foz de um rio, ou lançada ao ar entre duas ilhas suscita, forçosamente, a nossa admiração. A sua inauguração salta para a ribalta da actualidade e os órgãos de comunicação publicitam que: «Vale a pena fazer um desvio». As obras-primas dos homens, porem, não resistem ao desgaste do tempo nem aos desacatos das guerras.

Catarina exprime a mediação de Cristo servindo-se da imagem de uma ponte que, não sendo feita pela mão do homem, resiste a todas as cheias da história. As pedras dessa ponte foram cimentadas com o sangue de Cristo, e a união da sua divindade com a nossa humanidade, nunca será destruída; a aliança renovada no seu sangue, nunca será quebrada. É uma ponte coberta, «resguardada pela misericórdia»; um viaduto ao longo do qual há armazéns de abastecimento: as «lojas» dos sacramentos, particularmente da Eucaristia. Tudo foi previsto para facilitar a caminhada do peregrino, para o alimentar, dessedentar e tratar. Uma ponte assim, é uma pura obra-prima da graça! Será que desperta a nossa gratidão? Será que compreendemos a mensagem do Evangelho: «Vale a pena fazer um desvio»? «Ninguém pode vir ao Pai senão por Mim» (Jo 14,6).

Deus, por intermédio do seu Filho, transporta-nos de uma margem para a outra, para que possamos atravessar o rio a pé enxuto, como os Hebreus por ocasião da Páscoa. O orgulho, porém, priva-nos da simplicidade, e não seguimos pela ponte. Preferimos salvar-nos sozinhos, correndo o risco de nos afogarmos, em vez de enveredar pelo caminho aberto e oferecido por Cristo. Catarina serve-se da imagem da ponte para exprimir a experiência da graça que nos leva, como Teresa de Lisieux utilizará, numa época mais recente, a do elevador: porque nos esfalfamos a subir a escada, se Cristo nos estende os braços nos falta a humildade de nos deixarmos levar.

A impotência e a graça

A ponte simboliza o caminho da verdade, já que «a mentira tinha cortado a estrada para o céu». Cristo, pela sua verdade, restaurou o caminho. Na extremidade da ponte, Ele é a porta da muralha. «Se alguém entrar por Mim, estará salvo» (Jo 10,9). O caminho fluvial simboliza o engodo fascinante de tudo quanto o mundo contém de ilusões e de correntes incontroladas. «Aqueles que passam por baixo da ponte, afogam-se, por a água de nada lhes serve; corre sem cessar; e o homem também corre, sem cessar, atrás de coisas que não consegue agarrar nem reter» (D 27). «Foi para dar remédio a tantos males que vos dei o meu Filho e que fiz d’Ele uma ponte… Reconhece, pois, tudo quanto a criatura Me deve e quanto a alma se mostra descortês ao preferir afogar-se em vez de utilizar a ajuda que Eu próprio lhe ofereci» (D 21).

Graça e ingratidão

A questão central sobre a qual Catarina reflecte, é o facto de a graça ser oferecida e ser desprezada. É como se Cristo não tivesse vindo; como se a ponte da sua encarnação e da sua cruz não tivesse servido de nada. «Vê como é grande a ignorância e a cegueira do homem que, apesar de lhe ter sido construído um viaduto, teima em passar pela água. O caminho da ponte é tão delicioso para aqueles que o utilizam, que toda a amargura se transforma em doçura e todo o peso excessivo se torna leve… Não há língua capaz de exprimir, nem ouvidos capazes de ouvir, nem olhos capazes de ver, a alegria que sente quem segue por esse caminho… Muito louco é quem despreza tão grande bem, passando por debaixo da ponte, avançando no meio de mil fadigas, sem nenhuma consolação nem nenhum bem… Quero que, juntamente com  todos os meus outros servidores, andeis continuamente contristados por causa das ofensas que Me são feitas, continuamente compadecidos do mal que se fazem a si mesmos, e da ingratidão com que Me ultrajam» (D 28).

A questão da unicidade do caminho para ir até ao Pai, é muito actual. Com efeito, parece que, hoje em dia, se pode ir até ao Pai por todos os caminhos, sem passar nem pela Ponte, nem pela Porta. Isto é, a mediação de Cristo parece supérflua. Não é por se afirmar, de acordo com o Evangelho, que Jesus é o único caminho para o Pai, que todos os outros caminhos são, só por isso, condenáveis. Nós acreditamos que todas as pessoas, seja qual for a sua crença, são filhas de Deus, são amadas por Ele e podem chegar ao Pai pela mediação de Cristo, mesmo que «o Caminho» não lhes tenha sido revelado. Mesmo sem serem, explicitamente, membros da Igreja, passam misteriosamente por Cristo. Porque Cristo morreu por todos e a graça de ir até ao Pai é dada, «por Ele», a todos.

Catarina fala a cristãos: desprezar a Ponte, é rejeitar Cristo e menosprezar a sua graça. A indiferença propositada é um ultraje feito ao amor do Pai manifestado em Cristo. A ingratidão, de que Catarina se acusa a si própria quando não se conhece a si mesmo. É por isso que Catarina insiste tanto nesta verdade libertadora: «Eu sou aquela que não é. Tu és Aquele que é».

* * *

«Ó Deus amor,
Tu que és Verdade, fala da Verdade.
Eu não sei dizer nada,
eu que não sou senão trevas,
pois não procurei o fruto da Cruz.
Procurei as trevas e saboreei as trevas…
Ah! Se o maléfico amor próprio
não cegasse os olhos
que a graça do baptismo iluminou!
Deixamos de Te ver,
a Ti e a todos os outros bens verdadeiros
e chamamos bem ao mal, e mal ao bem;
e assim decaímos
para a última ignorância e ingratidão.
Mais valia não ter recebido a luz.
Um crente falso é inferior ao infiel
e pior será o seu castigo;
no entanto, se lhe restar algum lampejo de fé,
tem mais facilidade em recorrer ao remédio
para se curar» (O 27).

 

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