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Fonte: Secretariado Nacional de Liturgia


Reze
O Santo Rósario

Movimento Salvai Almas

Recados do Aarão

Pai de Amor

fimdostempos

Quinze dias com Santa Catarina de Sena

A Ponte de Três Degraus

Com a revelação da ponte. Catarina recebe o convite para lhe subir os degraus. Esta ponte «preenche o espaço entre o céu e a terra, graças à união que consumei com o homem, feito do barco da terra» Vem do alto e sobe-se-lhe a partir de baixo. Como? Cristo diz de si mesmo: «Quando for erguido da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12,32); nada atrai mais o amor do que o amor.

Os pés pregados

«O primeiro degrau são os pés, que significam o desejo. Com efeito, assim coo os pés suportam o corpo, o desejo suporta a alma. Os pés pregados servem-te de degraus para chegar ao lado, o qual te revela o segredo do coração. Com efeito, logo que te ergues sobre os pés do desejo, a alma começa a sentir o desejo do coração aberto do Meu filho: é nele que encontra o perfeito e inefável amor… Então a alma, ao ver-se amada a esse ponto, enche-se de amor» (D 26).

No primeiro degrau, a alma despoja-se dos desejos desordenados para fixar o seu desejo em Cristo. No segundo, reveste-se de amor, cujo segredo encontrou no lado de Cristo. Aí, «o coração inebria-se» a tal ponto que deixa de se ver a si próprio; fica «como se estivesse embriagado» (C 75). O esquecimento total de si mesmo conduz à etapa seguinte.

«Tenho subido o segundo  degrau, a alma chega ao terceiro, isto é, à boca, onde encontra a paz, depois da grande batalha que travou contra os seus próprios pecados… A ponte, portanto, tem três degraus, para que, tendo subido os dois primeiros, se chegue ao último. Este é tão alto que a água não pode atingi-lo. Não há nele nenhum vestígio de pecado». (D 26).
Estes três degraus correspondem às etapas da vida espiritual que a tradição designa por purificação, iluminação e união com Deus.

O lado aberto: aí, vês o segredo

«Que revelação! – escreve Catarina ao irmão Nicolau – Foi por um amor imenso que Se imolou e que fez de Si próprio, isto é, do seu próprio corpo, um degrau para nos tirar do caminho das aflições e nos dar o repouso! Oh!, querido filho, quem duvidará de que o início deste caminho seja muito duro? Mas quando se chega aos pés da afeição… toda a amargura se transforma em doçura»«Foi a regra que Ele ensinou uma vez a uma das suas servas (Catarina), dizendo-lhe: “Eleva-te, minha filha, eleva-te acima de ti própria, eleva-te até Mim. Foi para te poderes elevar, que fiz do meu corpo um degrau para ti, quando me pregaram na cruz. Procura elevar-te, primeiramente até aos meus pés, isto é, até à afeição e ao desejo de Mim… É assim que começarás a conhecer-te a ti mesma. Depois, alcançarás o meu lado aberto, cuja chaga te mostrará o meu segredo: que tudo o que fiz, o fiz por amor do teu coração; por isso, que a tua alma se inebrie”» (C 64).

Um dia, Catarina perguntou a Cristo porque é que tinha deixado que Lhe abrissem o lado já depois de morto; o Senhor respondeu-lhe que foi para nos permitir víssemos «o segredo do coração», pois o sofrimento dura só algum tempo, ao passo que o seu amor é infinito. «Quis, pois, que vísseis o segredo do coração, mostrando-vo-lo aberto, a fim de que vísseis que vos amava mais do que vos podia mostrar com o sofrimento finito» (D 75). Este lado aberto, onde o ser humano é esperado para ser envolvido em ternura, é chamado aposento nupcial. Nesta contemplação há um crescendo que nos faz passar do exterior para o interior. Cristo não atrai somente para junto d’Ele, mas para entrar n’Ele: esta atracção é um êxtase.

Admirável simbolismo: ao passo que Deus fechou o lado de Adão depois de ter tirado Eva – osso dos seus ossos e carne da sua carne -, Catarina vê o lado de Cristo sempre aberto, para que a humanidade possa entrar nele e possa, nele, purificar-se das suas ofensas, saciar-se, e unir-se à divindade. «O fogo intensificava-se em mim e eu estava cheia de admiração. Porque via os cristãos e os infiéis entrar no lado de Jesus crucificado. O desejo e o ardor do amor faziam-me ir com eles e entrar também em Cristo» (C 133).

«O beijo da sua boca» (Ct 1,2)

A paz que Cristo oferece na cruz, permanece, mesmo no meio de angústias e dos ultrajes: «A tribulação pode acometer a alma sem que ela se perturbe. Se estiver no meio da prosperidade do mundo, não se lhe apega de maneira desregrada, porque se despojou de si mesma no primeiro degrau. Este é o lugar onde se une e se torna semelhante a Jesus crucificado» (C 75). «Gozamos então de um tal repouso e de uma tal beatitude que, estando tão alto, nenhuma amargura nos pode atingir» (C 74).

Uma tal quietude equivaleria à fuga do mundo? Seria uma espécie de tranquilizante para atenuar a sensação dos golpes recebidos? Aproximar-se da boca de Cristo suscita, em Catarina, três interpelações.

Primeiramente, Cristo exclama: «Tenho sede». Esta sede da nossa salvação fá-lo sofrer mais do que tudo. É infinita, «ao passo que o sofrimento do corpo é finito» (C 8).

Como podemos dessedentá-Lo? Pagando-lhe «amor com amor»: servindo o próximo até arrostar com a própria morte, se necessário.

Quando é que Lhe oferecemos fel e vinagre? «Sempre que nos entregamos ao amor de nós próprios, à negligência…, sempre que, acordados, rezamos pouco, sempre que não andamos famintos da glória de Deus e da salvação das almas» (C 8).

«Quando tomou o vinagre, Jesus disse: “Tudo está consumado”. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito» (Jo 19,30). Foi a consumação. O espírito de paz daí resultante, é comunicado aos homens. «Admirai esta paciência! Não dá ouvidos às injúrias com que O atormentam na cruz. Ao ouvir os gritos dos judeus que, por um lado, vociferam: “Crucifica-O”! e por outro, clamam que desça da cruz, limita-se a dizer: “Pai, perdoa”. Permanece imóvel, apesar de Lhe dizerem que desça: persevera até ao fim e é com uma alegria imensa que profere estas palavras: “Consummatum est” (= Tudo está consumado). Julgar-se-ia, talvez, que fossem palavras de tristeza, mas foram… palavras de alegria» (C 101). Cristo desejara tanto a nossa salvação, que exulta com o cumprimento da sua missão. A verdadeira paz coincide com a alegria do Servo.

«Pai, nas tuas mãos…». Receber estas últimas palavras da boca de Cristo, faz-nos comungar no abandono filial a que sempre aspirara. A paz faz-nos viver na humildade de uma entrega total a Deus.

* * *

 

O primeiro degrau é o vestíbulo onde te despojas do pecado e da vontade própria para nada mais desejares além de Cristo.

O segundo, é o aposento nupcial onde te revestes «do traje nupcial da divina caridade»; convencido de que sendo assim tão amado, deixas-te consumir por esse fogo, a ponto de te abrasares no mesmo amor.

O terceiro é «o leito tranquilo onde a alma repousa» (C 74), o lugar onde te entregas totalmente a Deus, na paz da obediência», porque já não te pertences. A paz proveniente de uma tal união, não é o repouso ilusório da satisfação espiritual nem da preguiça apostólica. A comunhão com Cristo na cruz, liberta do receio de perder a vida ou qualquer outra vantagem, e torna o coração aguerrido para a missão. «Nenhuma amargura, nenhuma tristeza, nenhuma privação conseguem afligir» aquele que recebeu o «beijo» da paz. «Possui a suprema alegria… pois em Deus, que é o alegria suprema, não há nem tristeza nem amargura» (C 107).

Uma tal união, não só modifica o nosso próprio ser e o nosso comportamento, mas também o curso da história: o relacionamento dos homens entre si e com Deus, a sua relação com as coisas e com a criação inteira. «Arrastado pelo seu desejo de amor, o coração do homem é atraído, com todas as potências da alma: memória, inteligência e vontade. Assim harmonizadas e reunidas no mesmo nome, todas as suas acções materiais e espirituais são atraídas… e unidas a Mim pelo desejo de amor… já que se elevou tão alto para seguir o Amor Crucificado». – «Bem vês assim que, uma vez o homem atraído, tudo é atraído, pois todas as coisas foram feitas para ele. Portanto, era preciso que a ponte fosse levantada ao alto e que tivesse degraus, para se lhe poder subir mais facilmente» (D 26).

 

O Livro vivo 

Para guiar a nossa oração procuramos, muitas vezes, um bom livro… E para estimular a nossa conversão, uma boa testemunha. Analfabeta, Catarina é incapaz de ler livros, mas por isso mesmo, possui o Dom de ler no corpo de Jesus, morto e ressuscitado, todo o amor que nos tem. Sabe que o único mestre capaz de ensinar, é «a doce Verdade».

Verdade é um nome próprio, uma pessoa que ama e se dá a conhecer. Por isso, o conhecimento não nasce primeiramente na cabeça, mas no coração, e «o amor segue o conhecimento». Os livros e a ajuda exterior são úteis, mas dependem do uso que deles se fizer. Empregam-se os meios e goza-se de Cristo. Mas às vezes, preferimos saborear os meios e desprezamos Cristo. A ajuda de um conselheiro espiritual ou de alguém «que fala bem», é preciosa, mas pode conduzir a um apego alienante em vez de conduzir a Cristo. «Não vos deixeis tratar por “mestres” – não chameis “mestre” a ninguém –, pois um só é o vosso Mestre – Cristo» (Mt 23,10).

Catarina, apesar de ter tido conselheiros espirituais e ter mantido contacto com monges cultos, afirma muitas vezes: «O que tenho e sou, não o devo a nenhum homem, mas unicamente a Cristo». Como sensibiliza os corações, tem também os seus fãs! A um padre, responde: «Recebi a sua carta. Compreendi o que diz. Bem sabe que eu só posso ver e dizer coisas a partir da minha própria miséria, ignorância e pouca inteligência; o resto provém da soberana e eterna Verdade. É a Ela que há-de atribuir-se, não a mim» (C 96).

A um dos seus correspondentes, apreensivo por ter lido – ou escrito – um livro considerado pouco ortodoxo, responde: «Deus deu-nos os olhos da inteligência e, interiormente, a luz da fé, que não pode ser-nos tirada, nem pelo demónio nem pelas criaturas, se não a perdermos nós, por amor próprio. Deu-nos o livro escrito, o Verbo, Filho de Deus: foi escrito no madeiro da cruz, não com tinta, mas com sangue; e as iniciais são as dulcíssimas e sagradas chagas de Cristo. E que ignorante ou que espírito grosseiro haverá, incapaz de ler esse livro? Nenhum, exceptuando aqueles que se amam a si próprios, não por falta de ciência, mas por falta de vontade» (C 307).

«Bendigo-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas coisas aos sábios
e aos inteligentes
e as revelaste aos pequeninos» (Lc 10,21).

«O Mestre subiu à tribuna da Cruz e ensinou-nos a sua doutrina, que escrevera no seu corpo. Fez de Si mesmo um livro, cujas letras são tão visíveis que toda a gente pode lê-las perfeitamente, apesar da fraqueza da sua inteligência e dos seus olhos. Portanto, que a sua alma o leia; que o leia e que, para melhor o ler, suba, com os pés da afeição, até ao amor de Jesus crucificado; caso contrário, não poderá ler bem. Alcancemos o salão principal, que encontramos na chaga do seu lado, onde nos revela o segredo do seu coração…» (C 255).

Nós não conseguimos amar sem egoísmo. O rigor da Lei faz-nos gostar do fruto proibido. S. Paulo, que nos convida a receber a graça, diz que Cristo anulou a dívida causada pela impossibilidade de cumprir a Lei, cravando na cruz o documento de acusação (Cl 2,14). Catarina extasia-se diante do Crucificado: esse documento, todo rasgado, – escreve – «era em pele cordeiro» (C 251).

* * *

«Ó Divindade eterna!...
Nem a memória pode reter-Te,
nem a inteligência compreender-Te,
nem o coração amar-Te como convém.
Ó natureza divina, que ressuscitas os mortos
e és a única que dá a vida,
quiseste unir-Te à natureza humana
ferida de morte,
para lhe devolver a vida.
Ó Verbo eterno, uniste conTigo
tão estreitamente a natureza mortal,
que, depois, foi impossível separá-la de Ti:
sobre a cruz, a natureza mortal suportava a dor,
mas a natureza divina vivificava-a,
de modo que eras, simultaneamente,
feliz  sofredor.
o próprio sepulcro não quebrou
a união das duas naturezas.
Ó misericórdia inefável! Foi o teu próprio Filho,
o teu Filho por natureza, que foi castigado
por causa da falta do filho de adopção!
E não apenas o seu corpo
suporta o suplicio da Cruz;
a sua alma é torturada pelo desejo.
Ó Pai eterno,
como são profundos e incompreensíveis
os teus Juízos!
O homem insensato não pode compreendê-los.
E todavia, estes insensatos põem-se a julgar
as tuas obras
e a vida dos teus servos.
No entanto, apenas vêem a aparência,
incapazes de darem conta
do insondável abismo do teu amor,
e da abundância de caridade
derramada na alma dos teus servos» (O 27).

 

A pedra de diamante:
Miséria e Misericórdia 

«Misericórdia para o mundo» – pede Catarina a Deus. A guerra esmaga milhares de civis, os malfeitores impunes triunfam, os pequenos sofrem por a sua dignidade ser achincalhada, há inocentes que são condenados… No turbilhão das paixões, da vaidade ou da barbárie, o coração do homem perde o Norte. «O insensato diz no seu Coração: Deus não existe!» (Sl 52). Às vezes, a alma fecha-se como uma ostra: «A nossa maquinação é perfeita. O coração de cada um permanece impenetrável» (Sl 32).

Catarina não precisa de ler os jornais nem de ver o telejornal para passar dias e noites em oração, a interceder pelos pecadores empedernidos. Cuida dos pobres e dos doentes e, neste mundo de miséria, é sobretudo sensível às doenças da alma. A inveja, o ódio, o ciúme, a opressão, o azedume, são a face oculta dos males da sociedade. Catarina conhece a vaidade dos príncipes da Igreja, a tibieza dos religiosos, a soberba dos governantes. O tempo é breve; os assassinatos, frequentes; e ela vê passar as carroças dos condenados à morte. O que a angustia, não são tanto os crimes e a devassidão, mas sobretudo a impenitência dos medíocres e o desespero dos filhos perdidos que ânsia por reencontrar. Contempla o amor salvador do seu Redentor, une-se às intenções e sofre com Ele a morte e a paixão de ver como o sangue de Cristo corre pelo chão, como o seu amor é desprezado e como os homens preferem o seu amor próprio. Nada mais pretende do que trabalhar pela salvação das almas: «Tenha gosto em estar com os publicanos e pecadores; quanto aos outros, ame-os muito e conviva pouco com eles», recomenda… ao seu confessor!

Só o amor pode quebrar a dureza do coração. Catarina recebe nas mãos a cabeça de Nicolau Tuldo, um prisioneiro político condenado à morte, que acompanhou até à execução. Este jovem nobre de Perúcia ficou tão revoltado com o excessivo rigor da sentença, que não deixava que ninguém se aproximasse do seu desespero. Foi graças à consolação que lhe proporcionavam as visitas de Catarina e à sua promessa de o acompanhar até ao suplício, que morreu «nas melhores disposições», depois de se ter confessado. «Chegou, por fim – escreve a Raimundo –, como um cordeiro pacifico e, ao ver-me, pôs-se a sorrir. Quis que eu lhe fizesse o sinal da cruz e, ao recebê-lo eu disse-lhe baixinho: “Meu querido irmão, vai para as núpcias eternas”… Estendendo-se com uma grande serenidade e eu destapei-lhe o pescoço. Debruçada sobre ele, recordei-lhe o sangue do Cordeiro. A sua boca nada dizia senão “Jesus, Catarina” e, enquanto pronunciava essas palavras, recebi a sua cabeça nas minhas mãos». A apóstola da misericórdia viu Cristo receber o sangue do condenado: «Nesse sangue estava a chama do santo desejo que a graça nele ocultara». Ele recebeu «o desejo, a sua alma, que colocou na abertura do seu lado, no tesouro da sua misericórdia» (C 143).

Lado aberto e coração fechado. Há um contraste permanente, na mensagem de Catarina, entre o lado aberto de Cristo e o coração fechado do homem. Aqueles que se obstinam no endurecimento, na ingratidão ou no desespero, «colocaram sobre o coração, por intermédio do livre arbítrio, a pedra de diamante que, se não for quebrada com o sangue, nunca será quebrada» (D 4). Diamante: a mais dura de todas as pedras! Nada há de mais resistente. Quer se trate de criminosos, cínicos, revoltados, desesperados ou de almas consagradas endurecidas pela falta de caridade, Catarina emprega, para todos, a mesma linguagem: «Peço-vos, em nome de Jesus crucificado, que essa pedra seja despedaçada pela abundância do sangue generoso do Filho de Deus. O seu calor é tanto, que não há frialdade nem dureza que lhe possam resistir» (C 146, a uma abadessa). A começar pelo papa e pelos arcebispos, todos precisam de que os seus corações de pedra se derretam à vista do amor do crucificado!

Exposto aos sarcasmos do seu povo, Cristo prometeu o Reino ao malfeitor contrito. «Tu não desprezas, meu Deus, um coração contrito» (Sl 50). «Hoje, se escutardes a sua voz, não endureçais os vossos corações» (Sl 95). «Tende cuidado, que não haja em vós um coração mau, a ponto de a incredulidade o afastar do Deus vivo. Exortai-vos, antes, uns aos outros… a fim de que não se endureça nenhum de vós, enganado pelo pecado» (Hb 3, 12-13).

O coração de alguns endureceu-se de tal maneira, que a pedra de diamante faz de pedra tumular: jazem na sombra da morte. A saída do túmulo só pode ser obra de Deus, Sol nascente, que nos vem visitar. É pela oração que Catarina consegue conversões. A de Nanni, um nobre criminoso, cujo coração estava empedernido por ódios mortais, mostra como ela procede: utiliza, «alternadamente, palavras que ferem e outras que deitam bálsamo na ferida; mas ele, como uma áspide que não ouve, fechava completamente os ouvidos do coração». Logo que cede num ponto, o Espírito entra pela brecha. As muralhas desmoronam-se. O homem «rebenta» e rende-se… às mãos do transpassado. Catarina confidencia-lhe: «Irmão bem-amado, a misericórdia do Senhor fez-te ver, finalmente, o perigo que corrias. Falei-te, mas desprezaste as minhas palavras. Dirigi-me então ao Senhor, que não desprezou a minha oração. Faz penitencia… antes que sejas surpreendido pela provação» (Vida II, 7).

A nossa época nada tem a invejar aos ódios mortais da Idade Média. A justiça civil e a política, impõem tréguas. Mas o tempo faz fermentar, debaixo do solo, «o mau cheiro das almas», e a caldeira dos povos explode novamente: vinganças, genocídios, purificações étnicas, torturas… Nos conflitos familiares e eclesiais, o tempo não remedeia nada. Pelo contrário, cava fossos. Só o amor e a misericórdia quebram os corações e as lanças.

A contrição perfeita. Catarina alcança conversões pela oração e pela pregação: pede, para cada um, a perfeita contrição. O Irmão Raimundo conta que, aquando de uma das missões pacificadoras no condado de Sena, viu centenas de pessoas descer das montanhas, como se tivessem sido convocadas por uma «trombeta invisível». Ao verem Catarina, as pessoas deixaram-se impressionar pela sua pregação – como os Judeus pela de Pedro – sobre Cristo crucificado: «Ouvindo estas palavras, ficaram emocionados até ao fundo do coração e perguntaram: “que havemos de fazer”? – Arrependei-vos» … (Act 2,37). Pedro vinha a sair do cenáculo e Catarina, da sua cela interior. «Eu era um dos confessores presentes – prossegue Raimundo – e encontrei nesses penitentes uma contrição tão viva, que ninguém podia duvidar da grande abundância de graças descidas do céu aos seus corações». Este caso não foi único, pois em 1376, o papa Gregório XI concedera a Catarina, por uma bula, que fosse acompanhada por três confessores detentores de poderes para absolverem os grandes culpados, que tivessem cometido grandes pecados. A maior parte deles nunca se tinha confessado ou nunca se tinha aproximado da misericórdia de Cristo com um coração aberto.

* * *

Entra na tua cela interior e implora misericórdia para a Igreja e para mundo.

Tu recebes o sangue de Cristo no teu coração, por meio dos sacramentos. A negligência não te faz, às vezes, ser frio como o mármore? Cristo também te diz a ti: «Faz-te capacidade, eu far-Me-ei torrente».

«Estava doente, preso, e fostes visitar-me» (Mt 25,36). Aqueles que estão doentes de endurecimento e presos da sua teimosia, terão algum lugar na tua amizade e na tua oração, ou será o teu coração que precisa de se enternecer? «Nada há de mais frio que um cristão indiferente quanto à salvação dos outros» (João Crisóstomo).

 

As moscas fogem do fogo

O coração de Catarina inflama-se à vista do amor de Cristo: «O fogo que, até então, estava latente sob a nossa cinza, começou a manifestar-se com enorme veemência quando o seu santíssimo corpo foi entreaberto no madeiro da Cruz, para que o desejo da alma fosse atraído para as alturas e para que o olhar da inteligência pudesse perscrutar o fogo do amor» (O22).

Nós pensamos, às vezes, que foi a maldade dos homens que subjugou Cristo na cruz. Pelo menos, é o que nos parece. Mas para Catarina, só «a santíssima caridade subjugou Deus», não o pecado. Nem os instrumentos de tortura, pois «os pregos não teriam sido capazes de O prender à cruz. Só o vínculo da caridade foi capaz de nela O fixar» (C126).

Se contemplarmos o amor que Deus nos tem, nenhum ser humano nem nenhum demónio conseguirá refrear o nosso desejo «da glória de Deus e da salvação dos homens». Porque os demónios fogem daqueles cujo coração estiver abrasado de amor divino. Como os insectos fogem de uma panela a escaldar. Mas se estiver morna, as moscas acorrem, instalam-se e comem.

Às vezes – prossegue Catarina – as moscas entram na panela e logo saem, porque a encontram mais quente do que imaginavam. O mesmo acontece ao demónio, julga que a alma está morna; penetra nela, por múltiplas tentações, mas logo sai, vendo o fervor com que a alma «procura conhecer-se a si própria e encher-se de dor por causa das suas faltas». A alma unida a Deus e inflamada do santo desejo, põe em fuga os demónios, como as moscas fogem da panela ao lume, com medo de se queimarem.

«As Moscas, drama em três actos», foi a primeira peça de Sartre. Põe em cena a liberdade em teste de situação. Milhões de moscas foram enviadas pelos deuses à cidade de Argos, depois de Egisto ter morto o rei. Simbolizam os remorsos que pensam…

As moscas, como todas as invasões de insectos, são um flagelo. Simbolizam os indesejáveis e numerosos assaltos de demónio. No «Diálogo», o Pai exorta Catarina a enfrentar essa situação com coragem. Convida-nos mesmo a que nos alegremos por nela nos encontrarmos, «pois nunca a alma tem tanta certeza que Deus habita nela como no momento da batalha. Porquê? Vou dizer-to: ela fica a conhecer-se a si própria quando, nos combates, nem consegue fugir, nem impedi-los. Reconhece, então, que nada é. A sua vontade pode unicamente recusar-se a consentir; nada mais. Se fosse qualquer coisa por si mesma, libertar-se-ia do que não quer. É, pois pelo verdadeiro conhecimento de si mesma, que se torna humilde. É com a luz da santíssima fé que corre para mim, Deus eterno, cuja bondade lhe sustém a sua boa vontade e a impede de ceder às misérias que a atormentavam no momento da batalha» (D 90).

Na época «das aflições, da adversidade, ou das tentações dos homens e dos demónios», só o fervor afasta as moscas. Aliás, o assalto destas pode tornar-se um meio de aumentar a nossa união com Deus: Jesus foi conduzido ao deserto «pelo Espírito, para ser tentado pelo diabo» (Mt 4,1). Foi nesse frente-a-frente que revelou o seu amor filial. Sim, «o Senhor põe-vos à prova para verificar se O amais com todo o vosso coração» (Dt 13,4).

* * *

 

«Ó Trindade eterna, fogo, abismo de caridade…
poderias dar-me mais
do que dar-Te a Ti mesma?
Tu és um fogo que arde sempre
e nunca se extingue.
Tu és um fogo que consome
o amor próprio da alma.
Tu és um fogo que derrete todo o gelo.
Tu iluminas…» (O 10).

(Às almas a Ti doadas),
«não somente Te dás (em alimento),
mas Tu as fortaleces
contra os assaltos do demónio,
as perseguições das criaturas,
as sublevações da sua própria carne
e contra as causas de perturbação
e contra as desgraças, venham de onde vierem.
A sabedoria do teu Filho ilumina-as,
quer quanto ao conhecimento de si próprias,
quer quanto à tua verdade
e aos artifícios de Satanás.
O fogo do teu Espírito ateia-lhes no coração
o desejo de Te amarem
e de te seguirem na verdade,
em maior ou menor grau,
segundo a medida do amor
que põem em vir ter contigo…».

 

«Desce da Cruz» 

Desistir, abandonar? A tentação é um declive, suave ou íngreme, que me afasta de Cristo. Para Catarina, a origem de toda e qualquer desistência é a sensualidade: a inclinação para viver como nos apetece, segundo o desejo dos nossos sentidos e para evitar sofrer. É uma existência dominada pelo desejo de conservar a vida e pelo medo de a Deus. Mas pode voltar-se contra o Criador e contra nós. O Tentador serve-se dele para nos restringir a liberdade, fazendo-os crer que somos livres de tudo e o centro de tudo.

No meio das tribulações, tanto suas como dos seus discípulos, Catarina fixa-se mais nas tentações de Jesus na cruz do que nas que suportou no deserto. Aliás, são idênticas: «O diabo retirou-se de junto d’Ele, até um certo tempo» (Lc 4,13). Incita Cristo a procurar uma maneira mais fácil de cumprir a sua angustia, Jesus está rodeado de pessoas que O insultam: «Desce da cruz» (Mt 27,40).

Abandonado por todos, é desafiado a abandonar tudo: «Se és Filho de Deus, não permaneças nesse estado. Arranja outra maneira de nos salvar. Dá-nos um sinal: lança-Te daí abaixo». Jesus também não fez o que Lhe apetecia quando Satanás Lhe propôs que revelasse quem era, incitando-O a lançar-Se do pináculo do templo.
«Desce da tua cruz»! Catarina conhece este desafio. Sabe até que ponto os discípulos Lhe estão sujeitos. As zombarias de que Jesus foi alvo no momento mais crucial do dom de Si mesmo, repercutem-se de século em século. Quanto mais entregarmos a vida, mais expostos lhes ficaremos. «Desiste da fidelidade a que te comprometeste no baptismo, no casamento, no celibato por amor…! Já chega de… Rasga a tua regra de vida, o teu contrato de casamento… Dá-nos um sinal da tua liberdade». Essa instigação, hoje continuada pelos médias, violenta-nos. Reduz o amor a obrigações exteriores que limitariam a nossa liberdade criativa. E se a minha fidelidade estivesse apenas presa por pregos? Não valeria mais arrancar os pregos?

Vendo tantas desistências, tantas fidelidades sem amor e opções dominadas pelo receio de sofrer, Catarina exclama: «O que é que manteve Cristo preso à cruz? Nem os pregos nem a cruz, teriam sido capazes de reter o Homem-Deus: só o vinculo do amor…» (C 88). Os pregos que parecem prendê-lo são, aos olhos da fé, «as chaves que nos abrem o Reino» (C 166). Na cruz, o Senhor responde livremente e por amor, a toda a sedução. É nela que exprime e recusa definitiva da tentação de contornar o sofrimento para seguir o seu próprio caminho.

A instigação à desistência provém do pai da mentira. A cruz triunfa sobre as ambiguidades da procura da própria satisfação. Sela a coerência de toda a vida de Cristo com a sua missão e o seu oferecimento: «Por eles, totalmente me entrego, para que também eles fiquem a ser teus inteiramente por meio da Verdade (Jo 17,19).

Esquivar-se é uma arte que o mundo aplaude. Catarina exorta-nos a ser perseverantes na oração, nas provações e na missão. Convida-nos a imitar a sabedoria de Cristo «que subiu à tribuna da cruz». Ele «fez do seu corpo um livro cujas letras são tão visíveis que toda a gente pode lê-las, perfeitamente, apesar da fraqueza da sua inteligência e dos seus olhos. Portanto, que a nossa alma O leia…» (C 255).

São concordes com o testemunho de Paulo, um dos seus santos preferidos, «mio Paoliccio», como lhe chamava: «Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos… Muitos, de quem várias vezes vos falei e agora até falo a chorar, são, no seu fim é a perdição, o seu deus é o ventre, e gloriam-se da sua vergonha – estão presos às coisas da terra… Caríssimos irmãos, permanecei firmes no Senhor» (Fl 3,10,18; 4,1).

Mesmo que não sejamos capazes de ficar unidos a Cristo nas provações, e nos desprendamos do madeiro quando nos acomete o temporal, sabemos que Ele nunca se desligará da nossa humanidade nem se desprenderá da cruz, sobre a qual foi imolado com a soberana liberdade do amor. Ele enxertou-se para sempre na nossa humanidade, para a remir, e na madeira seca das nossas vidas, para que dêem fruto.

* * *

«Ó amor, inestimável amor,
se no tempo em que o homem
era uma árvore morta,
fizeste dele uma árvore viva,
enxertando-Te nele. Tu, que és a vida…
Se, pois fizeste isso, podes agora
salvar o mundo inteiro
que não sabe enxertar-se em Ti.

Os homens deixam-se ficar
na morte da sensualidade
e ninguém vem à fonte
buscar Sangue para regar a sua árvore.

Ó Verbo eterno, ó amor inestimável,
assim como produziste, para nós,
frutos de fogos, de amor, de luz,
e o fruto da obediência pronta que Te fez correr,
louco de amor, para a infame morte de cruz,
e que deste estes frutos
devido ao enxerto da tua divindade
na nossa humanidade
e ao enxerto do teu corpo no madeiro da cruz;
do mesmo modo, a alma não pode
senão prestar atenção
à tua glória e à salvação das almas,
tornando-se fiel, prudente e paciente.

Pequei, Senhor, tem piedade de mim.
Ó Verdade eterna, une a Ti,
enxerta em Ti aqueles que me deste
e que amo com particular amor,>
para que produzam frutos de vida…» (O20)

 

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