O sofrimento: Um mistério
O filósofo inglês Bertrand Russel (1872-1970) escreveu: “O advento da civilização grega que produziu tal explosão de atividade intelectual é um dos acontecimentos mais espetaculares da história. Jamais ocorreu algo semelhante, nem antes nem depois. No curto espaço de dois séculos os gregos produziram na arte, na literatura, na ciência e na filosofia uma assombrosa torrente de obra prima que estabeleceram os padrões gerais da civilização ocidental”.
Da Filosofia de Sócrates, de Platão e Aristóteles aos jogos olímpicos, os gregos antigos lançaram as fundações daquilo que hoje se entende por civilização ocidental. Não é de estranhar que a imagem idealizada que ficou da Grécia Antiga seja a de um lugar rigorosamente ordenado segundo proporções clássicas entalhadas em mármore.
No pensamento da filosofia grega antiga dizia: Páthos máthos (sofrimento é escola e educação). O sofrimento lapida o ser humano liberta-o da soberba e do egoísmo e o faz mais sedento por virtudes eternas.
Quando o sofrimento não educa e a escola não serve para impregnar no ser humano os valores morais, a pessoa não suporta a dor e pode praticar todo tipo de miséria.
Dizia um dos maiores mestres latinos, Marcial (40-104 d.C.): “Só é realmente corajoso o homem que suporta a desgraça”.
Nem toda pessoa é forte suficiente para agüentar os infortúnios desta vida: de suor, lágrimas, sangue, pedras, buracos, espinhos, cardos, traves e encruzilhadas.
“Existem certas batalhas em nossas vidas que ou acabam conosco ou nos tornam mais fortes”, disse o autor da obra monumental O Peregrino, o inglês John Bunyan (1628-1688).
O sofrimento consegue transformar, alterar o rumo de pessoas, famílias, escolas, empresas, estados, nações, tanto para o bem, como para o mal.
HEROÍSMO OU REBELIÃO
O renomado escritor irlandês C.S.Lewis (1898-1963), autor da obra clássica As Crônicas de Nárnia. Foi criado numa família anglicana de Belfast, na Irlanda do Norte, o escritor e estudioso de literatura Lewis tinha péssimas lembranças da infância e da juventude. Elas abarcavam desde a perda da mãe, aos 9 anos, até a teimosia do pai e os internatos onde era surrado e aterrorizado pelos colegas.
O ser humano está sujeito a inúmeras tentações. Uma delas é a tentação do sofrimento. C.S. Lewis explica que “o sofrimento como o megafone de Deus é um instrumento terrível, podemos levar à rebelião final, que não dá lugar ao arrependimento”.
O sofrimento pode provocar várias tentações – a tentação da super indagação (a de querer entender a razão do sofrimento), a tentação da exageração (a de ampliar a dor desnecessariamente), a tentação da fixação (a de não querer consolo), a tentação da amargura ( a de misturar o sofrimento com decepção, ódio, ira e agressividade) e a tentação da apostasia (a de perder a fé e os padrões de comportamento, entregando-se ao álcool, às drogas, à violência e ao desregramento total).
C.S. Lewis diz que “o sofrimento oferece uma oportunidade para o heroísmo” e acrescenta que “essa oportunidade é aceita com surpreendente freqüência”. O mesmo Lewis explica que “o problema de conciliar o sofrimento humano com a existência de um Deus só é insolúvel enquanto associarmos um significado trivial à palavra ‘amor’ e considerarmos as coisas como se o homem fosse o centro delas”. (1)
Ninguém gosta de sofrer, mas todos passam pelas tribulações da vida.
O poeta alemão Johann Goethe (1749-1832), dizia: “O homem que não é posto a prova não evolui”. O italiano Dante Alighieri (1265-1321), afirmava: “Quem conhece a dor conhece tudo”.
O artista e poeta libanês Kahlil Gibran (1883-1931), nos ensina que “ninguém atinge a aurora sem passar pela noite”. E o célebre poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), nos exorta magistralmente: “A vida é combate, que os fracos abate, aos fortes, aos bravos, só pode exaltar”.
O sofrimento leva alguns ao desespero e derrota, e outros conseguem sair da tormenta com grandes vitórias.
O ser humano que passa por terríveis provas e dores cruéis não se rebela contra tudo e contra todos, é um herói, iluminado e abençoado pelos céus.
Temos ciência que, o sofrimento nos acompanha desde o nosso nascimento até a morte. Todavia, possa ser amenizado por momentos de profunda felicidade. Como exemplo de um sono tranqüilo sem esquecer de possíveis pesadelos.
Perder e ganhar faz parte da nossa caminhada.
O contributo desta jornada é a fé, a paciência e a esperança.
Com estas três práticas poderosas e o pensamento do filósofo francês Michel de Montaigne(1533-1592), temos as armas para não sermos vencidos e destruídos pelas aflições. “Existem derrotas mais triunfantes que as vitórias”, disse o filósofo.
Disse Jesus Cristo: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo” (João 16,33).
CONCLUSÃO
O filósofo italiano Antonio Negri defende que a dor afia a nossa visão de existência em ensaio sobre “O Livro de Jó, A Força do Escravo”.
Trata-se de um ensaio sobre “O Livro de Jó”, um dos livros da sabedoria do Antigo Testamento, da Bíblia Sagrada.
Diz o filósofo que o patriarca Jó, ensina que do mais intenso sofrimento podem ressurgir a paixão e a criação.
Existe um aspecto positivo na dor: é a travessia pelo deserto do sofrimento que Jó, enfim, chega a si: A experiência da dor pode se converter, desse modo em uma experiência ética, que ajuda o sofredor a se aproximar da verdade e, mesmo, da alegria. Não se trata de ser otimista, ou de ser pessimista, ele afirma. Mas de usar a dor para afiar nossa visão da existência.
O sofrimento é condição da existência. Condições que está ligada diretamente á solidão humana.
A vida, de fato, é dura, mas o homem tem vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro, diz Antonio Negri.
Negri compartilha do mesmo pensamento do seu conterrâneo, o poeta Giacomo Leopardi (1789-1837), que declara magistralmente: “O homem deve olhar bem fixo o sofrimento e vivê-lo intensamente, sem recuar, até conseguir tirar dele alguma coisa”.
Nós sabemos que não é tarefa fácil passar e suportar as vicissitudes de coisas maléficas.
A experiência do sofrimento é muito dolorosa. As marcas ficam.
Nada faz surgir tantas perguntas, quanto o sofrimento. Os porquês aparecem mais sobre esse assunto. A mente fica perturbada pelas respostas convincentes sim e não. São muitos questionamentos para poucas respostas.
A dor, agonia, tristeza e a solidão podem durar pouco tempo, um longo período, como pode durar uma vida inteira.
“Muitas vezes não adiantará você perguntar por que diante de uma doença ou decepção, diante da morte de uma pessoa que lhe é muito querida ou de uma tragédia. É preciso, isto sim, pedir ao Pai que o enriqueça de amor e confiança”.
Em cada vida há marcas da dor. A sociedade atual tem feito um grande esforço para eliminar a Cruz e o sofrimento da vida humana.
Diante de suas tentativas infrutíferas, multiplicam-se as explicações, também infrutíferas. Normalmente, diante do sofrimento, as palavras se tornam pobres, fracas, e vazias. É por isso, talvez, que as pessoas que mais sofreram são as que menos falam da dor, diz com magnífica maestria o preclaro Sr. arcebispo Dom Murilo S. R. Krieger, SCJ. (2)
A via-sacra e o calvário são para poucos. O bom Deus não permite para muitos, para que muitos não sejam reprovados.
“Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças. Mas, com a tentação, ele vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar”. (I Coríntios 10,13)
Pe. Inácio José do Vale
e-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmail.com
REFERÊNCIAS
(1) Ultimato, setembro-outubro, 2004, p.31 e 32.
(2) Brasil Cristão, julho, 2007, pp.20 e 21.
( 3) Valor, sexta-feira e fim de semana, 6,7 e 8 de julho de 2007, pp.4-6.
RUSSEL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental, Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
fonte: pela fe






