Pecado, a doença da Alma
São Tomás de Aquino, na Exposição do Credo, diz que há duas mortes: a primeira é a do corpo, física, quando a alma se separa dele; a segunda, é a da alma, espiritual, quando esta se separa de Deus. A pior é a segunda, e tem como causa o pecado.
O Catecismo da Igreja nos mostra toda a gravidade do pecado:
Aos olhos da fé, nenhum mal é mais grave do que o pecado, e nada tem consequências piores para os próprios pecadores, para a Igreja e para o mundo inteiro (§ 1488).
São palavras fortíssimas que mostram que não há nada pior do que o pecado.
Por outro lado, o Catecismo afirma que ele é uma realidade:
‘O pecado está presente na história dos homens: seria inútil tentar ignorá-lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes.’ (CIC, §386)
Deus disse a Santa Catarina de Sena, nos Diálogos:
‘O pecado priva o homem de Mim, sumo Bem, ao tirar-lhe a graça’.
São Paulo, numa frase lapidar explica toda a hediondez do pecado e razão de todos os sofrimentos deste mundo:
‘O salário do pecado é a morte’ (Rom 6,23).
Tudo o que há de mal na história do homem e do mundo é consequência do pecado, que começou com Adão.
‘Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram’ (Rom 5,12).
O Catecismo diz com toda a clareza:
‘A morte é consequência do pecado. Intérprete autêntico das Sagradas Escrituras e da Tradição, o Magistério da Igreja ensina que a morte entrou no mundo por causa do pecado do homem’. (CIC,§1008)
O Catecismo ensina que:
‘A morte corporal, à qual o homem teria sido subtraído se não tivesse pecado (GS,18), é assim o último inimigo do homem a ser vencido’ (1Cor 15, 26).
Santo Agostinho dizia que:
‘É desígnio de Deus que toda alma desregrada seja para si mesma o seu castigo.’
‘O homem se faz réu do pecado no mesmo momento em que se decide a cometê-lo.’
Sintetizava tudo dizendo que ‘pecar é destruir o próprio ser e caminhar para o nada.’
E dizia de si mesmo nas Confissões:
‘Eu pecava, porque em vez de procurar em Deus os prazeres, as grandezas e as verdades, procurava-os nas suas criaturas: em mim e nos outros. Por isso precipitava-me na dor, na confusão e no erro.’
Toda a razão de ser da Encarnação do Verbo foi para destruir, na sua carne, a escravidão do pecado.
‘Como imperou o pecado na morte, assim também imperou a graça por meio da justiça, para a vida eterna, através de Jesus Cristo, nosso Senhor’.(Rom 5,21)
O demónio escraviza a humanidade com a corrente do pecado. Jesus veio exactamente para quebrar essa corrente. São João deixa bem claro na sua carta:
‘Sabeis que Ele se manifestou para tirar os pecados’ (1Jo 3,5). ‘Para isto é que o Filho de Deus se manifestou, para destruir as obras do diabo’ (1 Jo 3,8).
Essa ‘obra do diabo’ é exactamente o pecado, que nos separa da intimidade e da comunhão com Deus, e nos rouba a vida bem aventurada.
Com a sua morte e ressurreição triunfante, Jesus nos libertou das cadeias do pecado e, pela sua graça podemos agora viver uma nova vida. É o que São Paulo ensina na carta aos colossences:
‘Se, pois, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus’ (Col 3,1).
Aos romanos ele garante:
‘Já não pesa mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. A Lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te libertou da lei do pecado e da morte’ (Rom 8,1).
Aos gálatas o Apóstolo diz:
‘É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão’ (Gal 5,1).
Santa Catarina de Sena ensina que é tão grande a liberdade que Cristo conquistou para o homem, que nada e ninguém pode tirar-lhe:
‘Tão grande é a liberdade humana, de tal modo ficou fortalecida pelo precioso sangue de Cristo, que demónio ou criatura alguma pode obrigar alguém à menor culpa, contra o seu parecer. Acabou-se a escravidão, o homem ficou livre’.
A vitória contra o pecado custou a vida do Cordeiro de Deus.
São João Batista, o Precursor, aquele que foi encarregado por Deus para apresentar ao mundo o Seu Filho, podia fazê-lo de muitas formas: ‘Ele é o Filho de Deus’, ou, ‘Ele é o esperado das nações’, como diziam; ou ainda: ‘Ele é o Santo de Israel’, ou quem sabe: ‘Eis aqui o mais belo dos filhos dos homens’, etc.; mas ao invés de usar essas expressões que designavam o Messias que haveria de vir, João preferiu dizer:
‘Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’ (Jo 1,29).
Aqueles que querem dar outro sentido à vida de Jesus, que não o Daquele que ‘tira o pecado do mundo’, esvaziam a sua Pessoa, a sua missão e a missão da Igreja. A partir daí a fé é esvaziada, e toda a ‘sã doutrina’ (1Tm4,6) é pervertida. Eis o perigo da ‘teologia da libertação’, que exigiu a intervenção directa da Santa Sé e do próprio Papa João Paulo II, pois, na sua essência, esta ‘teologia’ substitui o Cristo Redentor do pecado, por um Cristo apenas libertador dos males sociais e terrenos, reinterpreta o Evangelho e o Cristianismo dentro de uma exegese e de uma hermenêutica que não é aceita pelo Magistério da Igreja.
Os judeus não reconheceram Jesus como o Cristo de Deus, exactamente porque esperavam um Messias libertador político. Quando Jesus se apresentou como ‘Aquele que tira o pecado do mundo’, com o sacrifício de si mesmo, se escandalizaram e o pregaram na cruz como um farsante.
Assim como a missão de Cristo foi libertar o homem do pecado, a missão da Igreja, que é o seu Corpo místico, a sua continuação na história, é também a de libertar a humanidade do pecado e levá-la à santificação. Fora disso a Igreja se esvazia e não cumpre a missão dada pelo Senhor.
Jesus, quer dizer, em hebraico, ‘Deus salva’. Salva dos pecados e da morte. Na Anunciação o Anjo disse a Maria: ‘... lhe porás o nome de Jesus’. (Lc 1, 31)
A José, o mesmo Anjo disse:
‘Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados’. (Mt 1, 21)
A salvação se dá pelo perdão dos pecados; e já que ‘só Deus pode perdoar os pecados’ (Mc 2, 7), Ele enviou o Seu Filho para salvar o seu povo dos seus pecados.
‘Foi Ele que nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados’ (1Jo 4,10).
‘Este apareceu para tirar os pecados ´ (1Jo 3,5).
O Catecismo da Igreja lembra que ‘foram os pecadores como tais os autores e como que os instrumentos de todos os sofrimentos por que passou o divino Redentor’. (CIC, § 598)
Jesus é o Servo de Javé sofredor, que se deixa levar silencioso ao matadouro como se fosse uma ovelha muda (Is 53,7; Jr 11,19), e carrega os pecados das multidões (Is 53, 12), e toda sua vida se resumiu em ‘servir e dar a sua vida em resgate de muitos’ (Mc 10,45).
‘Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados.’ (Mt 26,28)
A primeira coisa que Jesus fez no dia da sua ressurreição, foi enviar os Apóstolos para perdoar os pecados.
‘Como o Pai me enviou, eu vos envio a vós... Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos’ (Jo 20, 22-23).
Isto mostra que a grande missão de Jesus era, de fato, ‘tirar o pecado do mundo’, e Ele não teve dúvida de chegar até a morte trágica para isto. Agora, vivo e ressuscitado, vencedor do pecado e da mote, através do ministério da Igreja, dá o perdão a todos os homens.
Como é grande e precioso o Sacramento da Confissão, chamado de Reconciliação! Pela absolvição do sacerdote, ministro do Senhor, recebemos o Seu próprio perdão, conquistado na obediência da cruz.
Santo Agostinho tinha uma boa comparação para explicar a necessidade da confissão frequente:
‘A neve recém caída derrete com facilidade. Mas se o sol não a atinge endurece. E, acumulando-se ano após ano, resistindo às investidas do clima, torna-se uma grande geleira, uma montanha de gelo.
Algo parecido ocorre com os pequenos pecados. Fáceis de eliminar no princípio, acumulados vão endurecendo pouco a pouco e, conservados por muito tempo longe da acção correctiva da graça, tornam-se quase incorrigíveis.’
Santa Catarina de Sena, ensina-nos que:
‘Ao revoltar-se contra Deus o homem criou a rebelião dentro de si. Em consequência da perda do estado de inocência, a carne se rebelou contra o espírito’.
Embora o Baptismo elimine o pecado original, as suas sequelas continuam em nós: os sofrimentos, a doença, a morte, a propensão ao pecado (concupiscência ‘fomes peccati’). O Concílio de Trento, o mais longo da história da Igreja (1545-1563), ensina-nos que:
‘Deixada para os nossos combates, a concupiscência não é capaz de prejudicar aqueles que, não consentindo nela, resistem com coragem pela graça de Cristo.’ Mais ainda: ‘aquele que tiver combatido segundo as regras será coroado (2Tm 2,5)’ (CIC § 405,1264).
Santo Agostinho entendia que a permanência, da concupiscência em nós, mesmo após o Baptismo, é uma oportunidade que temos de provar a Deus o nosso amor, lutando contra o pecado, por amor ao Senhor. Ele dizia que aquele que deixa o pecado por medo do castigo, e não por amor a Deus, acaba voltando a ele. É sobretudo, no rompimento radical com o pecado que damos a Deus a prova real do nosso amor filial.
Jesus disse aos apóstolos na última Ceia:
‘Se me amais, guardareis os meus mandamentos’ (Jo 14,15).
Guardar os mandamentos é a prova do amor para com Jesus. Quem obedece aos seus mandamentos, foge do pecado.
O grande São Basílio Magno (329-379), bispo e doutor da Igreja, ensina em seus escritos que há três formas de amar a Deus: a primeira é como o mercenário, que espera a retribuição; a segunda, é como escravo que obedece por medo do chicote, o castigo de Deus; e o terceiro é o amor filial, daquele que obedece porque de fato ama o Pai. É assim que devemos amar a Deus; e, a melhor forma de amá-lo é repudiando todo pecado.
Jesus retomou os Dez Mandamentos que há mil anos antes Deus já tinha dado a Moisés, e levou-os à plenitude no Sermão da Montanha. Quando aquele jovem perguntou-lhe: ‘Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna?’ (Mt 19,16), Jesus respondeu dizendo:
‘Se queres entrar na vida guarda os mandamentos’; e fez questão de citá-los: ‘não matarás, não adulterás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra pai e mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo’ (Dt 5,16,20; Lv 19,18).
Os Dez Mandamentos são a salvaguarda contra o pecado. Por isso o primeiro compromisso de quem almeja a santidade deve ser o compromisso de viver, na íntegra, os Mandamentos.
Santo Agostinho dizia que essas são as duas asas que Deus nos deu para voar alto e chegar aos céus: o amor a Deus e o amor ao próximo.
Os Mandamentos nos ajudam a compreender e a viver este amor a Deus e aos irmãos, que nos levam à santidade e ao rompimento com a desordem, como Santo Agostinho chamava o pecado.
Se ainda pecamos, se ainda não somos santos, é porque ainda o amor a Deus e ao próximo não atingiu a sua plenitude em nós; pois, a santidade é uma história de amor.
Para compreendermos toda a hediondez do pecado, toda a sua feiura e maldade, temos que contemplar cuidadosamente Jesus crucificado. Este foi o preço que Ele pagou para tirar o pecado do mundo. Somente contemplando demoradamente as chagas do nosso divino Redentor, a sua coroa de espinhos, os seus açoites, os seus cravos, as suas feridas... é que poderemos ter em conta toda a tristeza que o pecado representa.
Diante da gravidade do pecado, o autor da Carta aos Hebreus chega a dizer aos cristãos:
‘Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado’ ( Hb 12,4).
Nesta luta, justifica-se chegar até ao sangue, se for preciso, como Jesus o fez.
A Igreja, iluminada pela luz do Espírito Santo, seu Guia infalível, com sua experiência bi-milenar, nos ensina que os piores pecados são aqueles que ela chama de ‘capitais’. Capital vem do latim ‘caput’, que quer dizer cabeça. São pecados ‘cabeças’, isto é, que geram muitos outros.
Assim como, por exemplo, a capital de um estado ou de um país, é de onde procedem as ordens, as decisões e comandos, assim também, desses pecados ‘cabeças’, nascem muitos outros. Por isso, eles sempre mereceram, por parte da Igreja, uma atenção especial. São sete: soberba, ganância, impureza, gula, ira, inveja e preguiça.
Houve um santo que disse que, se a cada ano vencêssemos um desses sete, ao fim de sete anos, estaríamos santos. Portanto, vale a pena reflectir sobre eles, a fim de rejeitá-los, com o auxílio da graça de Deus e de nossa vontade.
Santa Catarina de Sena aconselhava a ‘entrar na cela do auto-conhecimento’ para conhecermos a nossa miséria e a grandeza de Deus. Assim nos tornaremos humildes.
Nesta reflexão queremos analisar-nos, sob a experiência da Igreja e da Palavra de Deus, a fim de lutarmos, com o auxílio da graça, contra essas ervas daninhas que querem tomar a nossa alma.
Um sábio provérbio chinês garante que ‘não é a erva daninha que mata a planta, mas a preguiça do agricultor’.
Sem preguiça espiritual, qual bom jardineiro de Deus, comecemos a limpar o jardim da nossa alma.
Mas esta limpeza não deve provocar em nós remorso, e sim arrependimento. O remorso gera na pessoa a angústia e o desespero; não é o que Deus quer. Ele deseja o arrependimento e o propósito de mudança.
Judas e Pedro pecaram gravemente; o primeiro abrigou na alma o remorso e se matou; o segundo, pela graça de Deus (‘Simão, eu orei por ti’ Lc22,31), arrependeu-se amargamente e chorou copiosamente. Foi perdoado por Jesus, e continuou sendo o escolhido para ser o primeiro chefe da Igreja do Senhor.
O QUE É O PECADO?
Antes de nos determos na análise dos pecados capitais, conheçamos um pouco daquilo que a Igreja nos ensina sobre a natureza do pecado.
O grande Agostinho de Hipona dizia que ‘o mal consiste em abusar do bem’, e ainda:
‘O pecado é o motivo da tua tristeza. Deixa a santidade ser o motivo da tua alegria.’
O Catecismo começa dizendo que:
‘O pecado é uma falta contra a razão, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro, para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens’. (CIC, §1849)
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, viam-no como uma ‘desordem’, e diziam que é ‘uma palavra, um acto ou um desejo contra a lei eterna’. (Faust. 22; S.Th.1-2, 71,6)
Ainda para Santo Agostinho ele é fruto do ‘amor de si mesmo até o desprezo de Deus’. (Civita Dei 14,21)
Jesus ensina que a raiz do pecado está no coração do homem:
‘Com efeito, é do coração que procedem más inclinações, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações. São estas coisas que tornam o homem impuro’. (Mt 15, 19-20)
Segundo a sua gravidade, a Igreja classifica os pecados em veniais e mortais, seguindo a sua própria Tradição.
O pecado mortal leva o pecador a perder o ‘estado de graça’, isto é, a ‘graça santificante’. O Catecismo afirma que:
‘Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso.’ (§1861)
O Catecismo ainda ensina que ‘o pecado mortal destrói a caridade no coração do homem por uma infração grave da lei de Deus, desvia o homem de Deus, que é seu fim último e bem aventurança, preferindo um bem inferior.’
São Tomás de Aquino assim explica:
‘Quando a vontade se volta para uma coisa de per si contrária à caridade pela qual estamos ordenados ao fim último, há no pecado, pelo seu próprio objecto, matéria para ser mortal... quer seja contra o amor a Deus, como a blasfémia, o perjúrio, etc., ou contra o amor ao próximo, como o homicídio, o adultério, etc. Por outro lado, quando a vontade do pecador se dirige às vezes a um objecto que contém em si uma desordem, mas não é contrário ao amor a Deus, e ao próximo, como por exemplo palavra ociosa... tais pecados são veniais’. (S. Th. 1,2, 88,2; CIC §1856)
É bom notar que para haver o pecado mortal é preciso que a pessoa queira deliberadamente, isto é, sabendo e querendo, uma coisa gravemente contrária à lei de Deus e ao fim último do homem.
Portanto, para que haja pecado mortal deve haver pleno conhecimento e consentimento; e quem peca deve saber e deve ter consciência do carácter pecaminoso do ato a praticar, e de sua ofensa à Lei de Deus.
A ignorância involuntária, isto é, aquela que a pessoa não tem culpa, pode diminuir ou até eliminar a culpa diante de uma falta mesmo grave, mas é bom lembrar que Deus imprimiu nas consciências dos homens, a Lei natural, isto é, os princípios da moral. (cf. CIC §1860). A Igreja reconhece que os movimentos da sensibilidade da pessoa, bem como o mecanismo das paixões, as pressões exteriores, as perturbações patológicas, etc., em certos casos, podem , diminuir o carácter voluntário e livre do pecado cometido, e consequentemente a sua culpa. (cf. CIC §1860)
O Catecismo lembra que:
‘O pecado por malícia, por opção deliberada do mal, é o mais grave’. (§ 1860)
Acontece a malícia quando há uma intenção maldosa, uma ‘exploração do mal’, por sagacidade, sátira, comércio, etc. É diferente o pecado daquele que sucumbiu por fraqueza, daquele que explorou o pecado. Por exemplo, é muito mais grave explorar a prostituição do que cair nela, eventualmente, por fraqueza, embora ambas as quedas sejam graves.
‘É pecado mortal todo pecado que tem como objeto uma matéria grave, e que é cometido com plena consciência e deliberadamente’. (§1857; RP, 17)
‘A matéria grave é precisada pelos dez mandamentos segundo a resposta de Jesus ao jovem rico: ‘Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes ninguém, honra teu pai e tua mãe’. (Mc 10,19)’ (CIC§ 1858)
Portanto, a gravidade dos pecados pode ser maior ou menor conforme o dano provocado pelo mesmo. Também a qualidade da pessoa ofendida entra em consideração. Ofender ao pai é mais grave que ofender um estranho.
Santo Afonso de Ligório, doutor da Moral, diz que o ‘pecado mortal é um monstro tão horrível, que não pode entrar numa alma que por longo tempo o detestou, sem se fazer claramente conhecido.’
Dizia ainda o santo doutor que o pecado mortal é aquele que se comete de ‘olhos abertos’; isto é, sem dúvidas do mal que se está praticando.
O pecado venial acontece quando não se observa a lei moral em matéria leve, ou então quando se desobedece à lei moral em matéria grave, sem perfeito conhecimento ou consentimento (cf. CIC §1862). Não nos torna contrários à vontade de Deus e à sua amizade; não quebra a comunhão com Ele, e portanto, não priva da graça de Deus e do céu.
Contudo, não se deve descuidar dos pecados veniais, pois, eles enfraquecem a caridade, impede a alma de crescer na virtude, e, quando é aceito deliberadamente e fica sem arrependimento, leva a pessoa, pouco a pouco, ao pecado mortal.
Santo Agostinho lembra que ‘o acúmulo dos pequenos vícios traz consigo a desesperança da conversão’.
‘O homem não pode enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves. Mas esses pecados que chamamos leves, não os consideres insignificantes: se os consideras insignificantes ao pesá-los, treme ao contá-los. Um grande número de objectos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então a nossa esperança? Antes de tudo a confissão...’ (Ep. Jo 1,6; CIC §1863)
Muitos perguntam o que é o pecado contra o Espírito Santo. A Igreja ensina que é o daquele que rejeita livremente acolher, pelo arrependimento, a misericórdia de Deus, ‘rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo’. É o endurecimento do coração, a tal ponto, que leva a pessoa a rejeitar até a penitência final. Se morrer neste triste estado, experimentará a perdição eterna. (cf. CIC §1864)
O pecado gera na pessoa uma tendência ao próprio pecado. Podemos dizer que quanto mais se peca, mais se está predisposto ao pecado. A repetição torna-se vício. E assim, nasce na pessoa a inclinação à perversão, obscurece-se a consciência, e vai se perdendo o discernimento entre o bem e o mal. Não foi sem razão que o Papa Paulo VI disse certa vez que, o pior pecado deste mundo é achar que o pecado não existe. A prática do pecado, continuamente, faz com que a pessoa perca a noção da sua gravidade. No entanto, por pior que seja, o pecado não consegue, de todo, ‘destruir o senso moral até a raiz’. (CIC §1864)
Diante de nossos pecados, não adianta se desesperar ou desanimar; a única atitude correcta é enfrentá-los com boa disposição interior e com a graça de Deus. São Francisco de Sales, bispo e doutor da Igreja, dizia que não adianta ficar ‘pisando a própria alma’, depois de ter caído no pecado.
Até mesmo os nossos pecados, aceitos com humildade, podem nos ajudar a crescer espiritualmente. Santo Afonso de Ligório dizia:
‘Mesmo os pecados cometidos podem concorrer para a nossa santificação na medida que a sua lembrança nos faz mais humildes, mais agradecidos às graças que Deus nos deu, depois de tantas ofensas’.
DO Livro: PECADOS E VIRTUDES CAPITAIS - DO Prof. Felipe de Aquino
fonte: cleofas






