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Fonte: Secretariado Nacional de Liturgia


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Santo Agostinho — Misérias e tentações

O encontro de Deus

Mas onde Vos encontrei para Vos poder conhecer? Vós não habitáveis na minha memória quando ainda Vos não conhecia. Onde Vos encontrei, para Vos conhecer, senão em Vós mesmo que estais acima de mim? Nessa região não há espaço absolutamente nenhum. Quer retrocedamos, quer nos aproximemos de Vós, aí não existe espaço.
Ó verdade, Vós em toda a parte assistis a todos os que Vos consultam e ao mesmo tempo respondeis aos que Vos interrogam sobre os mais variados assuntos. Respondeis com clareza, mas nem todos Vos ouvem com a mesma lucidez. Todos Vos consultam sobre o que desejam, mas nem sempre ouvem o que querem. O vosso servo mais fiel é aquele que não espera nem prefere ouvir aquilo que quer, mas se propõe aceitar, antes de tudo, a resposta que de Vós ouviu.

Tarde vos amei

Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o, suspirando por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da vossa paz.

Miséria da vida humana…

Quando estiver unido a Vós com todo o meu ser, em parte nenhuma sentirei dor e trabalho. A minha vida será então verdadeiramente viva, porque estará toda cheia de Vós. Libertais do seu peso aqueles que encheis. Porque não estou cheio de Vós, sou ainda peso para mim.
As minhas alegrias, que deviam ser choradas, lutam com as tristezas, que me deviam incutir jubilo. Ignoro de que lado está a vitória. Ai de mim! Ó Senhor, tende piedade de mim! As tristezas do meu mal pelejam com os contentamentos bons, e não sei de que parte está o triunfo.
Ai de mim! Ó Senhor, tende compaixão de mim! Olhai, eu não escondo as minhas feridas. Vós sois o medico e eu o enfermo; sois misericordioso e eu miserável. Não é a vida do homem, sobre a terra, uma contínua tentação? Quem deseja trabalhos e preocupações? Ordenais aos homens que as suportem e não que as amem. Ninguém ama o que lhe custa, ainda quanto goste de o suportar, porque, apesar de se alegrar com o sofrimento, prefere não ter nada que sofrer. Nos reveses, anseio pela prosperidade, e nas coisas prósperas, temo a adversidade.
Entre estes dois extremos, qual será o termo médio onde a vida humana não seja tentação? Ai das prosperidades do mundo, repito, ai das prosperidades do mundo por causa do receio da desgraça e da corrupção da alegria! Ai das adversidades do mundo, uma, duas e três vezes, por causa do desejo de prosperidade, por ser a desgraça dura e ameaçar destruir a paciência! Não é a vida humana sobre a terra uma tentação contínua?

Toda a esperança está em Deus

Só na grandeza da vossa misericórdia coloco toda a minha esperança. Dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes. Ordenais-nos a continência. Ora, afirmou um sábio: «Ao conhecer que ninguém pode ser casto sem o dom de Deus, é já um efeito da sabedoria o saber de quem provém este dom». Pela continência, reunimo-nos e reduzimo-nos à unidade, da qual nos afastamos ao derramarmo-nos por inumeráveis criaturas. Menos Vos ama aquele que ama, ao mesmo tempo, outra criatura, e não a ama por causa de Vós.
Ó amor que arde sempre e nunca se extingue! Ó caridade, ó meu Deus, inflamai-me! Ordenais-me a continência? Dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes!

Tríplice tentação

Mandais-me, sem dúvida, que me abstenha da concupiscência da carne, da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da ambição do mundo. Ordenais-me que me abstivesse das relações luxuriosas. Quanto ao matrimónio, apesar de o permitirdes, ensinastes-me que havia outro estado melhor. E porque mo concedestes, abracei-o antes de ser nomeado dispensador do vosso Sacramento. (Sacerdote).
Mas na minha memória, de que longamente falei, vivem ainda as imagens de obscenidades que o hábito inveterado lá fixou. Quando, acordado, me vêm à mente, não têm força. Porém, durante o sono, não só me arrastam ao deleite, mas até à aparência do consentimento e da acção. A ilusão da imagem possui tanto poder na minha alma e na minha carne que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a acções a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir.
Meu Deus e Senhor, não sou eu o mesmo nessas ocasiões? Apesar disso, que diferença tão grande vai de mim a mim mesmo, desde o momento em que ingresso no sono até àquele tempo em que de lá volto!
Onde está nesse momento a razão que resiste a tais sugestões quando estou acordado e permanece inabalável quando as próprias realidades se lhe introduzem? Fecha-se, quando cerro os olhos? Dorme simultaneamente com os sentidos corporais? E porque é que muitas vezes, mesmo no sono, resistimos, lembrados do nosso propósito, e enganos? Contudo, a diferença é tão grande que, quando no sono nos sucede não resistir, ao acordar voltamos ao descanso da consciência. Por essa mesma diferença é que vemos que não praticamos voluntariamente essas acções, dado o facto de sentirmos pena de que tais actos se tivessem passado em nós.
Não é poderosa a vossa mão, ó Deus triunfante, para me sarar todas as enfermidades da alma e para extinguir, com graça mais abundante, os movimentos lascivos, mesmo durante o sono? Aumentareis, Senhor, em mim, cada vez mais, as vossas dádivas, para que a minha alma, liberta do vício da concupiscência, siga até Vós. Para que não seja rebelde, nem sequer no sono; para que não cometa tais torpezas e depravações sob a acção de imagens animalescas, descendo até à lasciva carnal; para que, enfim, de modo nenhum nelas consinta.
Não é muito para Vós — ó Omnipotente, que podeis fazer ainda mais do que aquilo que pedimos e compreendemos — impedir, não só nesta vida mas também nesta idade, que alguma das tentações me deleite, mesmo que seja tão pequena como a que posso vencer logo, ao primeiro esforço da vontade, quando se adormece em pensamentos castos.
Agora, porém, exultando embora com tremor perante o bem que me concedestes e lamentando-me diante do que ainda não obtive, disse ao meu Senhor que ainda me encontrava neste género de mal. Espero que aperfeiçoareis em mim as vossas misericórdias até à paz plena que os meus sentidos interiores e exteriores terão convosco, quando a morte for substituída pela vitória.

A gula

«Outro mal tem o dia» e oxalá que lhe bastasse! Reparamos os gastos quotidianos do corpo, comendo e bebendo até ao momento em que Vós, destruindo os alimentos e o estômago, matardes a minha indigência com uma saciedade maravilhosa e revestirdes este corpo corruptível com a eterna incorruptibilidade. Por enquanto, esta necessidade é-me agradável e combato contra esta delícia, para me não deixar dominar por ela.
Sustento uma guerra quotidiana com jejuns, reduzindo o corpo à escravidão. Mas depois disto vem o prazer para afastar as minhas dores. Efectivamente, se o remédio dos alimentos não nos socorrer, a fome e a sede tornam-se tormentos que abrasam e matam como a febre. Ora, estando este remédio sempre ao nosso alcance, graças à liberalidade dos vossos dons que faz com que a terra, a água e o céu sirvam à nossa enfermidade, chamamos delícias a tal desgraça.
Ensinaste-me a tomar os alimentos só como remédio. Mas quando passo do tormento da indigência ao descanso da saciedade, o laço da concupiscência arma-me ciladas no caminho. Com efeito, esta passagem é um prazer e não há outra por onde se possa ir para chegar aonde a necessidade nos obriga
Sendo a saúde o motivo de comer e beber, o prazer junta-se a esta necessidade, como um companheiro perigoso. Ordinariamente, procura ir adiante para que se faça por ele o que, segundo vou dizendo, faço ou quero fazer por causa da saúde. Ora, o limite não é o mesmo para ambos os casos, pois o que basta à saúde é insuficiente para o prazer.
Muitas não se vê bem ao certo se é o cuidado necessário do corpo que pede esse reforço do alimento ou se é a voluptuosa e enganadora sensualidade que exige ser servida. A infeliz alma alegra-se com esta incerteza e nela procura o apoio duma escusa, regozijando-se com não poder determinar o que é suficiente para o cuidado moderado da saúde. Por isso, sob pretexto da sua conservação, encobre a satisfação do prazer.
Esforço-me todos os dias por resistir a estas tentações, invocando em meu auxílio a vossa dextra e submetendo-Vos as minhas incertezas, porque nesta matéria ainda não está firme o meu parecer.
Oiço a voz do meu Deus que me ordena: — «Não se façam pesados os vossos corações com a intemperança e a embriaguez. A embriaguez está longe de mim. Vós tereis compaixão da minha alma, não a deixando aproximar de mim.
A intemperança, porém, algumas vezes arrasta o vosso servo, mas compadecer-Vos-eis de mim e a vossa misericórdia afastá-la-á para longe. Ninguém pode ser continente se Vós não lhe dais graça. Concedeis-nos muitos benefícios quando Vos invocamos. Todo o bem que recebemos antes de orar, recebemo-lo de Vós. Enfim, é ainda um dom que nos concedeis, o reconhecermos depois como vosso esse benefício. Nunca estive embriagado. Mas conheci muitos que foram vítimas de tal vício e, pela vossa graça tornaram-se sóbrios. Os que nunca foram inclinados à embriaguez, devem-no a Vós; e os que, durante algum tempo, foram inclinados a ela, devem-Vos a cura. Uns e outros devem-Vos o saberem que fostes Vós quem lhe concedeu essa graça.
E ouvi também outra palavra vossa: — «Não corras atrás das tuas concupiscências e reprime a tua sensualidade». (sir 18,30).
Por benefício vosso, prestei ouvidos ainda a outra frase de que muito gostei: — «Nem porque comamos, teremos abundância, nem porque não comamos, nos faltará» (1Cor 8,8). Quer dizer: nem a abundância, me há-de fazer rico, nem a necessidade me há-de tornar pobre.
Ouvi ainda outra voz: — «Aprendi a contentar-me com o que possuo: sei viver na abundância e sofrer a penúria. Tudo posso naquele que me conforta» (Fl 4,12-13). Eis como fala um soldado dos acampamentos celestiais que não é o pó que nós somos. Mas lembrai-Vos, Senhor, que somos pó e que do pó criastes o homem. Lembrai-Vos que este tinha perecido e foi encontrado. (Sal 103,14; Gn 3,19; Lc 15,24-32). Porque foi pó aquele a quem amei pelas palavras inspiradas que proferiu, também nada pôde por si mesmo, e assim disse: — «Tudo posso naquele que me conforta». Concedei-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes. O Apóstolo confessa que tudo recebeu de Deus, e quando se gloria, gloria-se no Senhor. (1Cor 1,31).
Ouvi também outro homem que Vos pedia para receber de Vós esta graça: — «Tirai-me as concupiscências do comer e do beber» (Sir 23,6). Donde se conclui claramente, ó Deus Santo, que sois Vós que concedeis a graça, quando fazemos o que mandais.
Ensinaste-me, Pai bondoso, que «tudo é puro para os puros» (Tt 1,15) e que «o comer com escândalo dos outros é mau para o homem» (Rm 14,20); que «todas as vossas criaturas são boas e nada se deve desprezar do que se pode tomar com acção de graças» (1Tim 4,4); que «não é o alimento que nos faz recomendáveis a Deus» (1Cor 8,8); que «ninguém nos julgue na comida e na bebida» (Cl 2,16) e, enfim, que «aquele que come, não despreze o que não come, e aquele que não come, não condene aquele que come» (Rm 14,3).
Eis o que aprendi de Vós. Dou-Vos graças e louvores, ó meu Deus e meu Mestre, a Vós que batestes às portas dos meus ouvidos e me iluminastes o coração. Arrancai-me de toda a tentação. Não receio a impureza do alimento, mas temo a imundice do prazer.
Sei que Noé teve licença para comer toda a espécie de carne que pudesse servir de alimento (Gn 9,3). Sei que Elias refez as forças, comendo carne; e que João, homem de admirável abstinência, não se manchou com animais, isto é, com os gafanhotos que lhe serviam de alimento (Mt 3,4). Mas sei também que Esaú se deixou enganar pela sofreguidão ardente dum prato de lentilhas (Gn 25,30-34); que David se repreendeu a si mesmo, por ter desejado água; e que o nosso Rei foi tentado, não com carne mas com pão. (Mt 4,3) Por isso, o Povo (de Israel) mereceu ser repreendido (Nm 11,4) no deserto, não por desejar carne, mas porque murmurou contra o Senhor por causa do desejo de alimento.
Exposto, portanto, a estas tentações, combato quotidianamente contra a concupiscência do comer e do beber, pois esta paixão não é coisa que se possa cortar logo duma vez, com o simples propósito de jamais a tocar para o futuro, como pude fazer no concúbito. Por isso, devemos ter mão nos freios do gosto, para afrouxar as rédeas com moderação ou retesá-las.
Quem será, Senhor, que se não deixe arrastar um pouco para além dos limites da necessidade? Se alguém há, como é grande! Engrandeça o vosso nome! Eu, porém, não sou deste número porque sou pecador. Mas também engrandeço o vosso nome. Sei que Aquele que venceu o mundo intercede, junto de Vós, pelos meus pecados. Sei que Ele me enumera entre os membros enfermos do seu corpo, porque os vossos olhos viram a sua imperfeição e todos hão-de ser inscritos no vosso livro.

A sedução do perfume

Não me inquieto demasiado com as seduções do perfume. Quando está afastado, não o procuro. Quando o tenho presente, não me esquivo, mas também estou preparado para dele me abster. Ao menos assim me parece. Talvez me engane.
A própria razão, que em mim existe, de tal maneira se esconde nestras trevas deploráveis que me rodeiam que, quando o meu espírito se interroga a si mesmo acerca das próprias forças, julga que não deve acreditar facilmente em si, por desconhecer, na maior parte dos casos, o que nele se passa, excepto quando a experiência claramente lho manifesta.
Ninguém se deve ter por seguro nesta vida que toda ele se chama tentação. (Jb 7,1) Quem é que, sendo pior, não se pode tornar melhor, e de melhor descer a pior? Só há uma esperança, uma única promessa inabalável: a vossa misericórdia.

O prazer do ouvido

Os prazeres do ouvido prendem-me e subjugam-me com mais tenacidade. Mas Vós desligastes-me deles, libertando-me. Confesso que ainda agora encontro algum descanso nos cânticos que as vossas palavras vivificam, quando são entoadas com suavidade e arte. Não digo que fique preso por eles. Mas custa-me a deixá-los quando quero. Para que essas melodias se possam intrometer no meu interior, em companhia dos pensamentos que lhes dão vida, procuram no meu coração um lugar de certa dignidade. Mas eu apenas concedo o que lhes convém.
Às vezes parece-me que lhes tributo mais honra do que a conveniente. Quando oiço cantar essas vossas santas palavras com mais piedade e ardor, sinto que o meu espírito também vibra com devoção mais religiosa e ardente do que se fossem cantadas doutro modo. Sinto que todos os afectos da minha alma encontram na voz e no canto, segundo a diversidade de cada um, as suas próprias modulações, vibrando em razão dum parentesco oculto, para mim desconhecido, que entre eles existe. Mas o deleite da minha carne, ao qual se não deve dar licença de enervar a alma, engana-me muitas vezes. Os sentidos, não querendo colocar-se humildemente atrás da razão, negam-se a acompanhá-la. Só porque, graças à razão, mereceram ser admitidos, já se esforçam por precedê-la e arrastá-la! Deste modo, peco sem consentimento, mas advirto depois.
Outras vezes, preocupando-me imoderadamente com este embuste, peco por demasiada severidade. Uso, às vezes, de tanto rigor que desejaria desterrar os meus ouvidos e da própria Igreja todas as melodias dos suaves cânticos que ordinariamente costumam acompanhar o saltério de David. Nessas ocasiões, parece-me que o mais seguro é seguir o costume de Atanásio, Bispo de Alexandria. Recordo-me de muitas vezes me terem dito que aquele Prelado obrigava o leitor a recitar os salmos com tão diminuída inflexão de voz que mais parecia uma leitura do que um canto.
Porém, quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da vossa Igreja, nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume.
Assim flutuo entre o perigo do prazer e os salutares efeitos que a experiência nos mostra. E, sem proferir uma sentença irrevogável, inclino-me a aprovar o costume de cantar na Igreja, para que, pelos deleites do ouvido, o espírito, demasiado fraco, se eleve até aos afectos de piedade. Quanto, às vezes, a musica me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso com dor que pequei. Neste caso por castigo, preferiria não ouvir cantar. Eis em que estado me encontro.
Chorai comigo, chorai por mim, Vós que praticais o bem no vosso interior, donde nascem as boas acções. Estas coisas, Senhor, não Vos podem impressionar porque não as sentis. Porém, ó meu Senhor e meu Deus, olhai para mim, ouvi-me, vede-me, compadecei-Vos de mim e curai-me. Sob o vosso olhar, transformei-me, para mim mesmo, num enigma que é a minha própria enfermidade.

A sedução dos olhos

Resta-me falar da voluptuosidade destes olhos da minha carne. Oxalá que os ouvidos piedosos de meus irmãos, em que habitais como em templo vosso, e escutassem esta confissão que vou fazer! Concluiremos, assim, as tentações da concupiscência da carne que ainda me perseguem, fazendo-me gemer e desejar ser revestido pelo vosso tabernáculo, que é o céu.
Os olhos amam a beleza e a variedade das formas, o brilho e a amenidade das cores. Oxalá que tais atractivos não me acorrentasse a alma! Oxalá que ela só fosse possuída por aquele Deus que criou estas coisas tão belas! O meu bem é Ele, e não as criaturas que todos os dias me importunam acordado, não me dando descanso, como o dão as vozes dos cantores que por vezes ficam todas em silêncio.
A própria rainha das cores, esta luz que se derrama por tudo o que vemos e por todos os lugares em que me encontro no decorrer do dia, investe contra mim de mil maneiras e acaricia-me, até mesmo quando me ocupo noutra coisa que dela me abstrai. Insinua-se com tal veemência que, se de repente me for arrebatada, procuro-a com vivo desejo. Se se ausenta por muito tempo, a minha alma cobre-se de tristeza.
Ó luz que Tobias contemplava quando, cego dos olhos corporais, instruía o filho no caminho da Vida, jornadeando à sua frente com os pés da Caridade, sem nunca se enganar (Tob 4,1)! Ó luz que Isaac via, quando, apesar da velhice lhe ter oprimido e fechado os olhos carnais, mereceu não abençoar os filhos reconhecendo-os, mas reconhecê-los abençoando-os! Ó luz que Jacob via, quando, privado também da vista pela avançada idade, irradiou do seu coração iluminado fulgores para todas as gerações do povo futuro, representadas nos seus filhos! Ó luz que Jacob contemplava, quando impôs as mãos, misteriosamente cruzadas, sobre os netos, filhos de José, não segundo a ordem por que os colocara o pai que via com os olhos externos, mas segundo uma outra ordem que ele discernia no seu interior! (Gn 48-49).
Eis a verdadeira Luz, a única Luz que de todos os que vêem e amam faz um todo único!
A outra luz corporal a que me referia ameniza a vida aos cegos amantes do século com atraente e pérfida doçura. Contudo, os que nela sabem achar motivos para Vos louvar, ó Deus, Criador de todas as coisas, assumem-na como um hino em vosso louvor, sem por ela serem engolidos no seu sono. É assim que eu quero ser.
Resisto às seduções dos olhos para que os pés, com que começo a andar no vosso caminho, me não fiquem presos. Levanto até Vós, por isso, os olhos invisíveis, a fim de que livreis os pés do laço tentação (Sal 25,15). Vós não cessais de mos libertar, porque frequentemente se me prendem. E como fico, a cada passo, preso nas insidias espalhadas por toda a parte, Vós não cessais de mos desenredar, porque sois o guarda de Israel e não adormeceis nem dormis (Sal 121,4).
Que multidão inumerável de encantos não acrescentaram os homens às seduções da vista, com a variedade das artes, com as industrias de vestidos, calçados, vasos, com outros fabricos desta espécie, com pinturas e esculturas variadas, com que ultrapassam o uso necessário moderado e a piedosa representação dos objectos! No exterior, correm atrás das suas obras. No interior, esquecem Aquele que os criou e destroem o que por meio d’Ele fizeram!
Eu, ó meu Deus e minha glória, até daqui tiro razoes para Vos cantar um hino, oferecendo um sacrifício de louvor ao meu Sacrificador, porque as belezas que passam da alma para as mãos do artista procedem daquela Beleza que está acima das nossas almas e pela qual a minha alma suspira de dia e de noite.
Mas os artistas e amadores destas belezas externas tiram desta suma Beleza apenas o critério para as apreciarem. Só não aprendem a regra para as usar bem! Contudo, esta também lá está. Não a vêem, porém, porque de contrário não iriam tão longe, mas reservariam para Vós toda a sua força e não a dissipariam em fatigantes delícias.
Eu mesmo, apesar de expor e compreender claramente esta doutrina, também me deixo prender por estas belezas; mas Vós, ó Senhor, libertais-me! Libertais-me, porque a vossa misericórdia está perante os meus olhos. Caio miseravelmente, e Vós levantais-me misericordiosamente — umas vezes sem sofrimento, porque resvalei suavemente; outras, com dor, por ter caido desamparado no chão!

A curiosidade

À tentação sobredita junta-se outra, mais perigosa sob múltiplos aspectos. Além da concupiscência da carne — que vegeta na deleitação de todos os sentidos e prazeres e mata a todos os que a servem, isto é, aqueles que se afastam para longe de Vós — pulula na alma, em virtude dos próprio sentidos do corpo, não um apetite de se deleitar na carne, mas um desejo de conhecer tudo por meio da carne. Este desejo curioso e vão disfarça-se sob o nome de «conhecimento» e «ciência». Como nasce da paixão de conhecer tudo, é chamado nas divinas Escrituras a concupiscência dos olhos (1Jo 2,16), por serem, estes os sentidos mais aptos para o conhecimento.
É aos olhos que propriamente pertence o ver. Empregamos, contudo, este termo, mesmo em relação aos outros sentidos, quando os usamos para obter qualquer conhecimento. Assim, não dizemos: «houve como brilha», «cheira como resplandece», «saboreia como reluz», «apalpa como cintila». Mas já podemos dizer que todas essas coisas se vêem. Por isso, não só dizemos: «vê como ressoa, vê como cheira, vê como sabe bem, vê como é duro». É por isso, como já disse, que se chama concupiscência dos olhos à total experiência que nos vem pelos sentidos. Apesar do ofício da vista pertencer primariamente aos olhos, contudo, os restantes sentidos usurpam-no por analogia, quando procuram um conhecimento qualquer.
Daqui se vê claramente quanto a volúpia e a curiosidade agem em nós pelos sentidos: o prazer corre atrás do belo, do harmonioso, do suave, do saboroso, do brando; a curiosidade, porém, gosta às vezes de experimentar o contrário dessas sensações, não para se sujeitar a enfados dolorosos, mas para satisfazer a paixão de tudo examinar e conhecer.
Que gosto há em ver um cadáver dilacerado, a que se tem horror? Apesar disso, onde quer que esteja, toda a gente lá acorre, ainda que, vendo-o, se entristeça e empalideça. Depois, até em sonhos temem vê-lo, como se alguém os tivesse obrigado a ir examiná-lo quando estavam acordados ou como se qualquer anúncio de beleza os tivesse persuadido de lá irem.
O mesmo se dá com os outros sentidos. Iríamos longe se os percorrêssemos a todos. Por causa desta doença da curiosidade, exibem-se no teatro cenas monstruosas de superstição. Dela nasce o desejo de perscrutar os segredos preternaturais que, afinal, nada nos aproveita conhecer e que os homens anseiam saber, só por saber.
É ainda a curiosidade que, com o mesmo intuito de alcançar uma ciência perversa, faz recorrer o homem às artes mágicas. Enfim, é ela que, até na religião, nos arrasta a tentar a Deus, pedindo-Lhe um milagres e prodígios, não porque os exija a salvação das almas, mas só porque se deseja fazer a experiência.
Neste bosque imenso, repleto de tantas insídias e perigos, cortei e expulsei da minha alma muitos males. Vós assim mo concedestes, ó Deus da minha salvação. Mas quando, no meio de tantas tentações desta espécie, que por todos os lados me circundam a vida quotidiana, ousarei afirmar que nenhuma delas me há-de prender a atenção? Quando poderei afirmar que não hei-de ver, nem hei-de deixar arrastar por nenhuma curiosidade vã?
Os teatros, é certo, já não me arrebatam, nem procuro conhecer o curso dos astros, nem nunca a minha alma esperou as respostas das sombras de que se vale a magia para as suas respostas. Detesto todos estes ritos sacrílegos. Mas, ó Senhor, meu Deus, a quem devo servir na humilhação e simplicidade, com quantas maquinações me incita o inimigo a pedir-Vos um sinal! Contudo, suplico-Vos pelo nosso chefe e nossa Pátria — a pura e casta Jerusalém — que assim como até agora esteve longe de mim este consentimento, assim continue a estar cada vez mais. Quando Vos peço a salvação de alguém, o fim do meu intento é muito diferente. Concedei-me agora e no futuro a graça de Vos sentir jubilosamente, fazendo Vós o que quiserdes.
Quem poderá contar, as insignificantes e desprezíveis misérias que todos os dias tentem a nossa curiosidade, e o número de vezes em que escorregamos? Quantas e quantas vezes não ouvimos contar banalidades! Ao princípio tolerámo-las, só para não ofender os fracos; mas depois ouvimo-las com gosto sempre crescente!
Já não contemplo um cão a correr atrás duma lebre, quando isso sucede no circo. Mas se a caçada for no campo, que eu casualmente atravesso, talvez ela me distraia dum pensamento importante e, menos com um desejo de coração. Se imediatamente, por meio da minha já conhecida fraqueza, me não avisardes que me liberte desse espectáculo e se eu me não elevar até Vós com alguma consideração, ou desprezando-o por completo ou passando adiante, ficarei loucamente absorvido.
Quando estou sentado em casa não me prende também, muitas vezes, a atenção de um estelião a caçar moscas ou uma aranha enredando as que se atiram às suas teias? Acaso, por serem animais pequenos, a curiosidade deixará de ser a mesma? É certo que disto me aproveito para Vos louvar, ó Criador admirável e Coordenador de todas as coisas. Mas não é isto o que primeiro me desperta a atenção. Uma coisa é levantar-me após a queda e outra coisa é não cair nunca. De tais misérias está repleta a minha vida. A minha única esperança é a vossa infinita misericórdia. Como o nosso coração é recipiente de todas estas misérias e porque traz essa imensa multidão de vaidades, muitas vezes as nossas orações interrompem-se e perturbam-se; de modo que, enquanto na vossa presença elevamos até junto de vossos ouvidos a voz da nossa alma, tais pensamentos fúteis, vindos não sei de onde, despenham-se sobre nós e cortam-nos a atenção em coisa tão importante.

O orgulho

Teremos estas misérias na conta de desprezíveis? Haverá qualquer coisa que me restitua à esperança, a não ser a vossa conhecida misericórdia, que principiou a obra da minha conversão? Vós sabeis quanto me transformastes já. Curastes-me a paixão da vingança, para depois me perdoardes todas as minhas maldades, para me curardes todas as minhas fraquezas, para me resgatardes da morte à vida, para me coroardes com a vossa graça e misericórdia e, enfim, para saciardes com os vossos bens os meus desejos. Depois, rebatestes o meu orgulho com o vosso temor e amansastes a minha cerviz sob o vosso jugo. Trago-o agora e sinto-me leve, porque assim prometestes e o cumpristes. Ele era, na verdade, leve, mas eu não sabia, quando receava tomá-lo.
Acaso, ó Senhor, — único Senhor que não reina com orgulho, porque sois o único Senhor verdadeiro, o único que não tem senhor — acaso cessou em mim ou poderá jamais cessar em toda a minha vida este terceiro género de tentações, que consiste em querer ser temido e que não é alegria? Oh!, que vida miserável! Que repugnante arrogância! Tal é o motivo por que não Vos amamos, nem santamente Vos tememos. Por isso, resistis aos soberbos e dais a vossa graça aos humildes! Trovejais sobre as ambições do século, fazendo abalar até as raízes das montanhas.
Em face dos deveres exigidos pela sociedade, precisamos de ser amados e temidos dos homens. Mas o inimigo da nossa felicidade espalha laços por toda a parte e insta connosco, gritando: — «Vamos, coragem!», para que ao procurarmos com avidez estas lisonjas, nos deixemos prender incautamente e desliguemos a nossa alegria da vossa verdade, colocando-a na mentira humana.
O inimigo incita-nos a que gostemos de ser amados e temidos, não por amor de Vós, mas em vez de Vós; para que assim, as semelhando-nos a ele, vivamos na sua companhia, associados aos seus suplícios e não unidos na concórdia da caridade. Determinou ele «estabelecer a sua morada no aquilão», para que naquelas obscuras e geladas regiões o servíssemos como vosso sinuoso e perverso imitador.
Mas olhai, Senhor! Nós somos o vosso pequenino rebanho! Sede o nosso possuidor! Estendei as vossas asas, para nos refugiarmos debaixo delas. Sede a nossa glória! Fazei que sejamos amados só por amor de Vós e que a vossa palavra ache em nós acatamento.
Reprovais aquele que deseja ser louvado pelos homens. Por isso não será defendido pelos homens quando o julgardes, nem liberto quando o condenardes. «Não louvamos o pecador nos desejos da sua alma, nem é bem-aventurado o que pratica a iniquidade». Se um homem, glorificado por qualquer dom que Vós, ó meu Deus, lhe concedestes, se compraz mais em louvar-se do que em possuir esse dom que lhe atrai o louvor, Vós reprovai-lo, apesar de louvado pelos homens. E, nesse caso, aquele que o louvou é melhor que aquele que foi louvado; porque o primeiro comprovou-se com o dom de Deus dado ao homem, e o segundo alegrou-se mais com o dom do homem do que com o dom de Deus.

A tentação do louvor

Todos os dias nos vemos investidos por estas tentações, ó Senhor! Somos tentados sem interrupção! Os louvores humanos são fornalha onde quotidianamente somos postos à prova. Também nesta miséria nos ordenais a continência. Concedei-nos o que nos ordenais e ordenai-nos o que quiserdes. Conheceis os gemidos que, a este respeito, se evolam do meu coração para Vós. Conheceis os rios de lágrimas que rebentam dos meus olhos! Ah!, dificilmente entrevejo até que ponto estou limpo desta peste.
Receio muito as minhas venialidades ocultas, que vossos olhos conhecem e os meus não vêem. Nos outros géneros de tentações, posso examinar-me sem dificuldade; mas neste, quase nada. A facilidade que alcancei em refrear a alma quanto aos prazeres da carne e quanto à vã curiosidade, reconheço-a quando me abstenho dessas paixões, quer seja voluntariamente, que porque as não tenha diante de mim. Nestes casos, pergunto a mim mesmo se me causa maior ou menor pena o não tê-las.
Quanto às riquezas que se ambicionam para satisfazer uma ou duas ou mesmo três concupiscências, se acaso a alma, ao possui-las, não pode sentir se as despreza, ainda pode afastá-las para provar o seu desapego. Mas para carecer de louvores e experimentarmos se podemos passar sem eles, precisaremos nós de entregar-nos a uma vida pecaminosa, tão perdida e brutal que ninguém nos conhece sem nos detestar? Que maior loucura se pode dizer ou imaginar?
Se o louvor deve ser habitualmente companheiro da vida sã e das boas obras, nesse caso não nos podemos abster do convívio do louvor que acompanha a vida santa. A verdade, porém, é que não distinguimos se a privação dum bem nos é indiferente ou molesta, senão na ausência desse bem.
Que Vos hei-de eu, Senhor, confessar, neste género de tentações? Que me deleito muito com os louvores? Mas ainda me deleito mais com a verdade do que com os louvores! Pois, se me dessem à escolha ou ser um doido que se engana em todas as coisas, mas que é louvado por todos, ou ser um homem seguríssimo da verdade, mas por toda a gente escarnecido, bem sei o que escolheria. No entanto, não quereria que o louvor saído de uns lábios alheios aumentasse o gosto que experimento pela boa obra, seja ela qual for. Tenho, porém, de confessar que não só o louvor lhe aumenta o deleite, mas também o vitupério lho diminui.
Quando me perturbo com esta minha miséria, penetra-me na mente uma desculpa, cuja natureza Vós conheceis, meu Deus. Torno-me duvidoso e perplexo ante ela.
Essa desculpa é que Vós, não só nos ordenaste a continência que nos ensina que coisas devemos afastar da nossa afeição, mas também preceituastes a justiça que nos ensina para onde havemos de dirigir o nosso amor. Não quisestes que nos amássemos somente a nós, mas também ao próximo. Ora, muitas vezes, quando rectamente me deleito no louvor que é dado por uma pessoa inteligente, parece que me comprazo no aproveitamento e nas esperanças de que dá mostras. E, pelo contrário, entristeço-me com a sua maldade, quando a oiço censurar o que ignoro ou o que é bom.
Algumas vezes também me contristo com os louvores que me dirigem, quando enaltecem em mim coisas que me desagradam ou quando apreciam bens somenos e transitórios com maior estima do que merecem. Mas, repito de novo, como hei-de eu saber se este sentimento me aflige por causa de eu não querer que o meu admirador pense a meu respeito de modo diverso do que eu penso? Será, não porque me deixe arrastar pelo valor e utilidade desse meu admirador, mas porque aqueles bens que em mim me agradam, me são mais saborosos quando agradam também aos outros? De certo modo, não sou louvado quando a minha opinião, a meu respeito, não é elogiada, porque ou enchem de encómios as coisas que me desagradam ou louvam ainda mais as coisas que menos me comprazem. Sobre este ponto, não sou eu um enigma para comigo mesmo?
Em Vós, ó Verdade, vejo que não é por causa de mim, mas por utilidade do próximo que me devo sensibilizar com os louvores que me dirigem. Se é este, ou não, o meu caso, ignoro-o. Nesta questão, conheço-Vos melhor a Vós do que a mim mesmo.
Peço-Vos, meu Deus, que me mostreis as feridas que em mim encontrar, para que as manifeste aos meus irmãos, dispostos a orar por mim. Fazei que me examine ainda mais diligentemente.
Se nos louvores que me tributam tenho em vista a utilidade do próximo, por que razão, ao ser outro injustamente vituperado, me sensibilizo menos do que se essa injúria me fosse dirigida a mim? Porque é que a mordedura dum ultraje que me fere me é mais sensível do que a injúria, igualmente injusta, arremessada a outro na minha presença? Ignoro eu isto? Deduzirei ainda que me engano a mim mesmo e corrompo a verdade diante de Vós no meu coração e na minha língua?
Afastai, Senhor, para longe de mim esta loucura, para que as minhas palavras não sejam azeite de pecador a ungir a minha cabeça (Sal 141,5).

A vanglória

Sou necessitado e pobre, e o melhor que há em mim é aborrecer-me a mim mesmo, entre os secretos gemidos do meu coração, buscando eu a vossa misericórdia até ver a minha indigência reparada e aperfeiçoada com a paz desconhecida aos olhos do soberbo. As nossas palavras, porém, saídas da boca, e as nossas acções, conhecidas dos homens, escondem uma tentação muito perigosa, originada da estima do louvor, a qual recolhe e mendiga votos e pareceres alheios. A vanglória tenta-me até mesmo quando a critico em mim. Mas eu repreendo-a desse mesmo desejo de louvor.

O homem, muitas vezes, gloria-se vãmente no desprezo da vanglória. Mas, de facto, já não se pode gloriar nesse desprezo da glória, porque quando se gloria, já não despreza a glória!

O amor próprio

Existe dentro, bem dentro de nós, outro mal, oriundo do mesmo género de tentação, que faz vãos todos os que se comprazem em si, ainda quando não agradam aos outros — e até lhes desagradam — ou mesmo quando nem sequer procuram agradar-lhes. Ora, os que assim se comprazem em si mesmos desagradam-Vos muito, ó meu Deus, não só quando se gloriam dos males como se fossem bens, mas sobretudo quando se gloriam dos vossos bens como se fossem seus; ou quando, reconhecendo-os à vossa graça, não se alegram amigavelmente de que os outros também os possuam, tendo-lhes ainda, por isso mesmo, inveja.
Em todos estes perigos e trabalhos, Vós vedes claramente quanto teme o meu coração. Eu sinto que, no entanto, sois mais diligente em me curar do que eu em me infringir novas feridas.

Busca de Deus

Quando é que Vós, ó Verdade, me não acompanhastes para me ensinardes o que havia de evitar e o que devia desejar, todas as vezes que Vos consultei? Por mim, quanto possível, foi-Vos manifestado tudo o que pude observar no meu interior.
Percorri o melhor possível, com os sentidos, o mundo exterior. Observei em mim a vida do corpo e os próprios sentidos. Passei depois às profundezas da memória, a essas amplidões sucessivas. Observei-as, estupefacto. Mas, sem Vós, nada pude distinguir. Contudo, reconheci que Vós nada disto éreis.
Não era eu quem descobria estas maravilhas. É certo que as percorri a todas e tentei distingui-las e avaliá-las no seu justo valor, tomando e interrogando os seres que traziam mensagens aos meus sentidos. Analisei outros seres que sentia unidos a mim e examinei as suas informações. Revolvia nos grandes tesoiros da memória várias impressões, ora percorrendo umas, ora manifestando outras. Mas não era eu quem fazia tudo isto, nem era a força com que eu agia, a qual não éreis Vós, porque sois a luz imutável, que eu consultava acerca da existência, da qualidade e do valor de todas estas coisas. Eu ouvia os vossos ensinamentos e as vossas ordens. Costumo fazê-lo muitas vezes, porque sinto nisso grande alegria. Sempre que, nos meus trabalhos de obrigação, posso dispor de algum descanso, refugio-me nestes prazeres. Entre todas estas coisas que percorro, depois de Vos consultar, só em Vós encontro um reduto para a minha alma. Nele se reúnem os meus pensamentos dispersos e nada de mim se afasta de Vós.
Algumas vezes, submergis-me em devoção interior deveras extraordinária, que me transporta a uma inexplicável doçura, a qual, se em mim atingisse o fastígio, alcançaria uma nota misteriosa que já não pertence a esta vida.* Mas caio em baixezas cujo peso me acabrunha. Deixo-me absorver e dominar pelas imperfeições habituais. Choro muito por isso, mas sinto-me ainda muito preso. Tão pesado é o fardo do costume! Não quero estar onde posso, nem posso estar onde quero. De ambos os modos sou miserável!

A tríplice concupiscência

Considerei, portanto as fraquezas dos meus pecados na tríplice concupiscência e invoquei a vossa dextra para me salvar. Com efeito, apesar de ter o coração ferido, ainda pude ver o vosso esplendor. Mas, obrigado a recuar, exclamei: — «Quem pode lá chegar?». «Fui expulso dos vossos olhos». (Sal 31,23).
Vós sois a verdade que preside a tudo, e eu, na minha avareza, não Vos queria perder. Mas, além de Vós, desejava possuir também a mentira. Nisto, parecia-me com aqueles que não querem mentir muito, com receio de perder a noção da verdade. Foi assim que Vos perdi, porque Vós não permitis que Vós possuamos juntamente com a mentira.

Falsos mediadores

Poderia encontrar alguém que me reconciliasse convosco? Deveria eu recorrer aos anjos? Mas com que orações? Com que ritos? Ouvia dizer que muitos, querendo voltar para Vós, tentaram meter-se por este caminho, já que não o podiam fazer por eles próprios. Mas caíram no desejo de presenciar visões curiosas, merecendo, por isso, ficar entregues às ilusões.
Esses soberbos procuravam-Vos, levados mais pelo intento de ostentar o fausto da ciência, do que pelo desejo de bater no peito. Por isso, dada a analogia dos seus corações com os demónios aéreos, por cujo poder mágico se deixaram iludir, atraíram a si os espíritos mais como cúmplices e companheiros da sua soberba. Procuravam um mediador que os purificasse e não o acharam. O demónio tinha-se transfigurado em anjo de luz. Ele seduziu-lhes fortemente a carne orgulhosa, precisamente pela prerrogativa de não possuir corpo carnal.
Eles eram mortais e pecadores. E Vós, Senhor, com quem soberbamente procuravam reconciliar-se, sois imortal e sem pecado. Convinha que o mediador entre Deus e os homens tivesse semelhança com Deus e os homens; pois se se parecesse só com os homens, estaria longe de Deus, e se fosse semelhante só a Deus, estaria longe dos homens. Assim não havia mediador!
Aquele falso mediador que, por vosso ocultos juízos, tem licença para iludir a soberba humana, possui apenas uma coisa de comum com os homens: o pecado. Finge, contudo, assemelhar-se com Deus. Em razão de não estar vestido de carne mortal, mostra-se imortal. Mas como «a morte é o castigo do pecado» (Rm 6,23), ele tem de comum com os homens o pecado, o que faz com que seja condenado à morte juntamente com eles.

Cristo, Mediador Imortal

O verdadeiro Mediador, que, por vossa oculta misericórdia, mostrastes e enviastes aos homens para que, a seu exemplo, aprendessem a humildade, é Jesus Cristo, Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5). Apareceu como intermediário entre os mortais pecadores e o Justo Imortal. Apareceu mortal com os homens e justo com Deus. Como a recompensa da Justiça é a vida e a paz, pela justiça unida a Deus desfez a morte (Gl 5,4) dos ímpios justificados, querendo compartilhá-la com eles.
Cristo foi revelado aos santos do Antigo Testamento para que se salvassem pela fé na paixão já passada. De facto, só é Mediador enquanto homem. Como verbo, não é intermediário, porque é igual a Deus e é Deus em Deus, sendo ao mesmo tempo um só Deus.
Como nos amastes, ó Pai bondoso! Não perdoastes ao vosso Filho Único! Entregaste-Lo à morte por nós, ímpios pecadores! Como nos amastes! Foi por nosso amor que Ele, não considerando como rapina o ser igual a Vós, se fez por nós obediente até à morte e morte de cruz (Fl 2,6-8). Ele era o único entre os mortos que estava isento da morte, o único que tinha o poder de entregar a vida e de a reassumir de novo! Foi, diante de Vós, o nosso vencedor e vítima. Tornou-Se vencedor porque foi vítima. Foi, diante de Vós, o nosso Sacerdote e sacrifício, De escravos fez-nos vossos filhos, servindo-nos apesar de ter nascido de Vós.
Com razão n’Ele coloco toda a minha firme confiança, esperando que curareis todas as minhas enfermidades por intermédio d’Aquele que, sentado à vossa direita, intercede por nós (Mt 4,23; Rm 8,34). Doutro modo, desapegaria, pois são muitas e grandes as minhas fraquezas! Sim, são muitas e grandes, mas maior é o poder da vossa medicina. Poderíamos pensar que o vosso Verbo se tinha afastado da união com o homem e desesperado de nos salvar, se não Se tivesse feito homem e habitado entre nós (Jo 1,14).
Atemorizado com os meus pecados e com o peso da minha miséria, tinha resolvido e meditado, em meu coração, o projecto de fugir para o ermo. Mas Vós mo proibistes e me fortalecestes, dizendo: — «Cristo morreu por todos, para que os viventes não vivam para si, mas para Aquele que morreu por eles» (2Cor 5,15).
Pois bem, Senhor, lanço em vossas mãos o cuidado da minha vida, para que viva, e meditarei nas maravilhas da vossa lei (Sal 55,23; 119,27). Conheceis a minha ignorância e doença. Ensinai-me e curai-me (Sal 6,3).
O vosso Filho único, em quem estão escondidos os tesoiros da Sabedoria e da Ciência (Cl 2,3), remiu-me com o seu sangue. Não me caluniem os soberbos, porque eu conheço bem o preço da minha redenção. Como o Corpo e bebo o Sangue desta Vítima. Distribuo pelos outros. Sou pobre e anelo saciar-me com Ela na companhia daqueles que A comem e se saciam.
Louvarão o Senhor, aqueles que O buscam (Sal 22,27).